Entrevista com a veterinária Isabelle Tancioni sobre veganismo e cuidados com animais

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A médica veterinária Isabelle Tancioni ama os animais desde a sua infância. Quando decidiu seguir carreira na área de medicina veterinária, entrou em contato com diversas disciplinas que mostravam a realidade dos seres sencientes, que são vistos como alimento por muitos na sociedade. Isso a incentivou ainda mais a repensar sobre seus hábitos. Decidiu se tornar vegetariana aos 35 anos de idade. Por influência de seu marido, aderiu ao veganismo há 8 anos.

Isabelle iniciou seu pós-doutorado no Moores Cancer Center, na Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA). Estudou, entre outras especialidades, formas de salvar animais do câncer.

Com sua colega de profissão Silvia Neri Godoy, criou o Veg Vets, projeto que tem o objetivo de formar uma rede de veterinários veganos e vegetarianos, para motivá-los e ajudá-los a aplicar o veganismo na prática profissional.

Assista aqui ao vídeo que Isabelle Tancioni fez para o canal do Mimi Veg no YouTube (assine aqui) e confira a seguir a entrevista que a médica veterinária concedeu ao portal Mimi Veg:

1- Isabelle Tancioni, há quanto tempo você é vegana e o que a motivou a seguir essa filosofia de vida?

Isabelle Tancioni

Sempre gostei muito dos animais e, por isso, decidi fazer medicina veterinária. Durante a faculdade, só tinha conhecido um estudante vegetariano. Decidi ser vegetariana aos 35 anos e coloquei isso como meta na minha vida. Conheci meu marido, que é vegano, responsável por me apresentar o veganismo. Sou vegana há 8 anos. Ser veterinária e vegana são escolhas que combinam com minha filosofia: todos os animais humanos e não humanos merecem ser tradados com respeito, empatia e compaixão.

2- Fale pra nós sobre a importância dos cuidados diários com os animais e de levá-los ao veterinário sempre que preciso, ao invés de ficar perguntando nas redes sociais.

Isabelle Tancioni

Cada espécie de animal requer um cuidado diferente. É importante os humanos conhecerem sobre o comportamento natural e os cuidados necessários para manter o animal não humano* que faz parte da sua família. É essencial que o animal seja levado ao consultório veterinário para consultas e exames de rotina. O número de consultas ao ano vai depender muito da idade e se o animal apresenta algum problema de saúde.

A escolha do médico veterinário também é importante, pois ele é quem vai ser o médico da família multiespécie, e, assim, acompanhar a trajetória do animal e orientar a família humana sobre como mantê-lo saudável e feliz. Durante a consulta, o médico veterinário vai fazer o exame físico do animal para avaliar o estado de saúde.

Isabelle Tancioni

O especialista pode detectar alterações sutis no estado de saúde que não são percebidas pelo dono. Por exemplo: detecção de problema no coração. Avaliando precocemente o problema, pode-se evitar que ele se agrave. Com a tecnologia atual não é possível examinar o animal, dar o diagnóstico com precisão e coletar exames virtualmente. Por isso, é muito importante que o animal seja avaliado pelo veterinário em uma consulta presencial.

3- Castração e adoção de animais são assuntos ainda tratados com descaso no Brasil. Qual é a sua opinião sobre castrar e adotar, ao invés da procriação contínua que ocorre e da compra de animais.

Isabelle Tancioni

A Medicina Veterinária do Coletivo é um ramo voltado aos cuidados de animais abandonados. Conheço muitos veterinários veganos e vegetarianos que estão seguindo carreira nessa área. Controle populacional de cães e gatos é uma das missões da Medicina Veterinária do Coletivo, que é uma área nova e está crescendo muito no Brasil. É conhecida como Medicina de Abrigos (Shelter Medicine) nos Estados Unidos.

Como há diferenças entre o manejo de animais abandonados adotados no Brasil e nos EUA, a medicina de abrigos foi adaptada para a realidade brasileira e rebatizada de medicina do coletivo.

No Brasil, temos o contexto de saúde coletiva e saúde única, e os médicos veterinários trabalham diretamente com a população, protetores de animais e entidades de pequeno porte. Já nos EUA, há inúmeros abrigos de entidades de pequeno e grande porte, as quais recolhem animais abandonados e os mantêm em abrigos.

Isabelle Tancioni

Há diversos profissionais no Brasil e ao redor do mundo que fazem campanhas de castração, e também educam a população sobre a importância da castração e cuidados com os animais.

Participei recentemente da primeira campanha de castração realizada pelo World Vets no Brasil. Essa organização atua em diversos países da África, América Latina e Ásia. A castração é extremamente importante para controlar a população de cães e gatos. Animais castrados têm uma vida mais longa, possuem mínimas chances de exibirem alguns tipos de câncer, como de mama e de testículos, e alguns tipos de enfermidade, como piometra, que é uma infecção uterina comum em cadelas e gatas não-castradas e pode levar à morte.

A adoção de um animal abandonado é sempre tão gratificante e eu recomendo! Eu tenho duas gatinhas (Iona e Skye) que adotei do abrigo da cidade onde moro.

4- Isabelle Tancioni, como o veganismo influencia na sua profissão, na visão que você tem dos animais como médica veterinária?

 

Isabelle Tancioni

O veganismo tem uma influência enorme nas minhas decisões profissionais e pessoais. O ensino da medicina veterinária, na verdade, é extremamente paradoxal e há uma grande diferença no tratamento e empatia dispensados e direcionados aos animais considerados de companhia e àqueles destinados à produção (de alimentos, peças de vestuário etc.).

Cães e gatos podem receber tratamentos de última geração. Já os animais que são criados para o consumo, muitas vezes recebem tratamentos paliativos e vivem de forma miserável durante toda sua vida, que acaba no matadouro. Cursar disciplinas relacionadas à produção animal é um grande dilema para estudantes veganos e vegetarianos.

Essas disciplinas são obrigatórias e parte da grade curricular da Medicina Veterinária. Mesmo com todos os obstáculos, nós existimos! Há 1 ano, eu e Silvia Neri Godoy criamos o VEG VETS, Associação de Veterinários Veganos e Vegetarianos. Contamos com a ajuda do Guilherme Carvalho da Sociedade Vegetariana Brasileira, do veterinário Leonardo Gatto e também do financiamento da Pollination Project, ONG com base na Califórnia, EUA.

O VEG VETS visa motivar os médicos veterinários a procurarem soluções para melhor empregar o veganismo em sua prática profissional, na medida do possível e do factível.

5- Isabelli Tancioni, deixe uma mensagem para as pessoas refletirem sobre a relação com os animais não humanos, que são tratados como produtos e objetos de exploração.

Muitos desconhecem que a primeira faculdade de Medicina Veterinária foi criada para estudar doenças de animais de produção em meados de 1700. Desde então, a profissão de Medicina Veterinária mudou muito e parte disso aconteceu graças à expansão do conhecimento científico e ao estreitamento do vínculo humano-animal.

É extremamente importante ter profissionais de Medicina Veterinária que incluam todos os animais em seu círculo da compaixão. Estudantes de medicina veterinária veganos ou vegetarianos, não desistam! Vocês são peças fundamentais para promover mudanças na medicina veterinária. Os animais precisam de vocês! Quer trabalhar conosco? Entre em contato!

Isabelle Tancioni Contatos das organizadoras Isabelle Tancioni e Silvia Neri Godoy do Veg Vets:

– Site: logo estará no ar! www.vegvets.com
– Email: https://www.vegvetsbrasil@gmail.com
– Facebook: https://www.facebook.com/VEGVETS
– Instagram: @veg_vets

* Para facilitar a leitura, o termo animal não humano foi simplificado para animal.

*Fonte e imagens: Isabelle Tancioni

 



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