Turismo com animais: como evitar atrações cruéis

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O turismo com animais envolve crueldades desconhecidas por muitas pessoas. A história por trás de inocentes que tiveram suas vidas cerceadas para se tornarem escravos desta indústria, é muito bem explanada neste artigo da jornalista Luisa Ferreira. Confira e não financie sofrimento de animais em troca de alguns momentos de “entretenimento”.

*Por Luisa Ferreira

Eu cresci indo ao zoológico da minha cidade e voltando pra casa feliz quando conseguia ver o leão acordado. Por um tempo, achava que shows com golfinhos e orcas eram normais, e andar de camelo ou elefante também. Isso significa que não gosto de animais e não estou nem aí pra o bem-estar deles? Não. Significa que não entendia como o turismo com animais pode ser prejudicial.

Talvez você tenha consciência, como eu tenho hoje. Manter golfinhos em cativeiro e obrigá-los a fazer piruetas é cruel, assim como torturar elefantes bebês pra que se acostumem a carregar humanos nas suas costas. Mas muita gente ainda não sabe disso. E mesmo quem já tem alguma noção geralmente desconhece as implicações das atrações turísticas com animais.

De acordo com a Organização Mundial de Turismo, o turismo de vida selvagem representa entre 20% e 40% do valor anual gerado pela indústria turística no mundo – uma soma nada modesta de US$ 1,5 trilhão.

Isso pode parecer bom, já que se conectar à natureza e conhecer hábitos de animais silvestres é incrível pra nosso aprendizado. Além disso, projetos bem gerenciados ajudam a manter áreas de proteção ambiental e melhoram a vida dos animais. Mas muitas vezes esse não é o caso, e esse tipo de turismo pode trazer muito mais malefícios que benefícios à natureza.

Problemas do turismo com animais

Estive no escritório brasileiro da ONG internacional World Animal Protection (Proteção Animal Mundial), que desenvolve um trabalho importante na conscientização sobre o turismo com animais. Eles me mostraram vários estudos e relatórios sobre o assunto.

A organização estima, por exemplo, que aproximadamente 110 milhões de pessoas no mundo visitam locais que promovem turismo cruel com animais silvestres. E outro dado da Wildlife Conservation Research Unit (WildCRU) aponta que 550.000 animais silvestres sofrem no mundo todo por causa de atrações turísticas irresponsáveis.

A grande maioria das pessoas que participa desses tours não faz isso por mal. Pelo contrário: gostam tanto de animais que querem estar perto deles, tocá-los, brincar com eles. E, frequentemente, tirar fotos com eles, pra mostrar aos amigos suas experiências “exóticas”.

Mas naquela janelinha de tempo em que estamos com os bichos durante o passeio, nem sempre dá pra perceber que tem sofrimento por trás daquela atração.

Em alguns casos, os maus tratos são evidentes e a gente acredita nas desculpas pra se enganar. Um exemplo é o Zoo de Luján, na Argentina, que me arrependo de ter visitado. Em outros, os bichos estão no seu habitat natural e até parecem felizes, mas essa aparência pode ser enganosa.

Eu já sabia, por exemplo, que é proibido no Brasil retirar qualquer animal selvagem da natureza pra mantê-lo como bicho de estimação, ou possuir animais silvestres sem licença. E também que pra “amansar” um animal silvestre costumam ser usadas técnicas cruéis, como privá-lo de comida ou separá-lo dos pais.

Mas o pessoal da Proteção Animal Mundial reforçou que o problema não está só no cativeiro. Sempre que as atividades com vida selvagem envolvem interação, os bichos sofrem em algum nível. Afinal, isso pode provocar vários desequilíbrios, como torna-los dependentes da alimentação por humanos, provocar doenças, fazê-los brigar entre si por comida ou acelerar de forma anormal a reprodução de uma espécie e alterar o ecossistema do lugar.

Uma pesquisa da Proteção Animal Mundial na América Latina analisou 249 atrações turísticas com animais. De acordo com eles, 54% delas ofereciam contato direto, como segurar pra fotos. Já 35% usavam comida pra atrair os animais e 11% ofereciam a oportunidade de nadar com eles. Tudo isso pode parecer bem legal pra gente enquanto turista, mas não costuma ser nada bom pra o coitado do bicho que tá ali.

Exemplos de maus tratos no turismo com animais

No Brasil, a Proteção Animal Mundial se debruçou recentemente em pesquisas na Amazônia. E uma das principais atrações pra quem vai conhecer a selva pelas bandas de lá é nadar com botos cor de rosa, que são super fofos. A grande maioria das agências de turismo por lá oferece esse tipo de atividade, até mesmo em passeios de um dia saindo de Manaus.

Vi que pelo menos algumas das agências seguem regras que regulam os momentos de interação com os turistas. Alguns exemplos são: um limite de pessoas que podem entrar na água por vez, a proibição de tocar nos botos e a exigência de que se utilize só peixes frescos pra atrai-los.

No entanto, a maioria das pessoas não sabe que a interação por si só já é prejudicial. É verdade que eles estão lá no rio, seu habitat natural. Mas existe uma diferença grande entre ir fazer um passeio pra observá-los de longe enquanto vivem suas vidas normalmente e ficar usando peixes pra atrai-los sempre que chega um grupo de turistas. Eles não podem, claro, ser “desapontados” indo embora sem uma foto com os bichinhos.

Como resultado, muitos dos botos ficam com cicatrizes por serem tocados pelos guias ou turistas ou mesmo por brigar entre eles pela comida oferecida, segundo essa matéria da National Geographic.

Outros animais explorados na Amazônia são as jacaretingas, uma espécie de jacaré. Algumas empresas tiram elas da água só pra as fotos, o que já não é recomendado. Mas outras ainda fazem pior, segundo a Proteção Animal Mundial: mantêm os bichos em pequenas caixas de isopor entre uma visita e outra, além de deixar suas bocas amarradas com elásticos pra que não mordam os turistas.

Mais uma prática bem ruim nessa região é manter bichos-preguiça em cativeiro pra turistas tirarem foto com eles. Como as preguiças são animais naturalmente dóceis e com uma carinha sorridente, dá a impressão de que estão até curtindo os abraços e selfies, né? Mas é só impressão mesmo.

De acordo com a Proteção Animal Mundial, esses animais costumam dormir 22 horas por dia. Por isso, “trabalhar como modelos” é extremamente prejudicial pra saúde deles. Enquanto na natureza eles vivem entre 20 e 30 anos, em cativeiro sobrevivem por cerca de 6 meses (!!!). E quando morrem, são substituídos por outros filhotes tirados da natureza (como mostra esse vídeo horrível).

Infelizmente, as práticas negativas de turismo com animais acontecem em várias partes do mundo. Em muitos lugares, por exemplo, filhotes de tigre são separados das mães nas primeiras semanas de vida. Eles são usados como adereços pra fotos por horas, acorrentados em pequenas jaulas.

Em países como a Tailândia, um hábito comum é montar em elefantes. E como mencionei lá em cima, pra que isso seja possível os animais são forçados a passar por “treinamentos” desde bebês. Eles são separados das mães, acorrentados e machucados pra se acostumarem a ter gente montando nas suas costas.

Passeios com leões no sul da África, fazendas de tartarugas marinhas nas Ilhas Cayman e macacos dançarinos e serpentes “encantadas” na Tailândia são outros exemplos de exploração animal no turismo. Pra saber mais, leia essa publicação que lista as 10 atrações com animais mais cruéis do mundo.

E os santuários?

Eu já visitei zoológicos e aquários no Brasil e mundo afora e falei de alguns deles aqui no blog. Acreditei, como muita gente, no argumento de que esses espaços podem ser educativos e servir como centros de pesquisa e preservação das espécies. Mas infelizmente muitas vezes isso não é verdade.

Menos de 10% dos zoológicos e aquários estão envolvidos em programas relevantes de conservação, também segundo a Proteção Animal Mundial. E até mesmo lugares que se dizem “santuários”, supostamente criados pra cuidar de animais negligenciados, abusados ou abandonados, às vezes têm isso só como fachada.

Já vi histórias de gente que procurou “santuários de elefantes” na Tailândia porque sabia que esses animais costumam ser maltratados por lá. Mas, quando chegou no lugar, viu que essa história de preservação era mentira. Vi, também, fotos de pessoas nesses lugares dando banho em elefantes ou recebendo “beijinhos”.

Os especialistas ressaltam: verdadeiros santuários não devem promover apresentações ou permitir interação com os bichos. Devem, sim, ser espaços onde eles possam descansar e ser respeitados. Eles estão em primeiro lugar, não a gente.

Nessa matéria da National Geographic sobre o assunto, o diretor da American Sanctuary Association (ASA) observa que muitos lugares usam o nome de “santuário” mas demonstram estar focados no lucro. “Fomos fundados em 1998 porque naquela época havia muitos lugares se auto intitulando como santuários, mas quando investigamos descobrimos que eles estavam criando ou vendendo animais ou usando-os para fins comerciais”, diz ele.

Isso quer dizer que não existem instituições sérias que trabalham com animais selvagens? Existem, sim! De acordo com a Proteção Animal Mundial, 25% das atrações com vida silvestre têm um impacto positivo no bem-estar dos animais.

Um exemplo de projeto interessante é a Fundação para a Sobrevivência do Orangotango em Bornéu. Ela que resgata orangotangos que perderam seu habitat, ficaram órfãos na natureza, foram utilizados na indústria do entretenimento ou foram mantidos ilegalmente como animais de estimação.

Outro caso positivo é o do Santuário de Ursos da Romênia. O local abriga ursos que tinham sido capturados como filhotes e mantidos ilegalmente em pequenas jaulas em lugares como restaurantes e postos de gasolina pra atrair clientes.

No Brasil, alguns exemplos de destaque são a Associação Mico Leão Dourado e o Instituto Arara Azul. Eles promovem a observação de animais livres na natureza e não interferem no comportamento natural da espécie. Nesses lugares, os turistas podem acompanhar o trabalho de pesquisadores e ver os micos e araras em sua “vida normal”.

Turismo com animais: governos precisam fiscalizar para acabar com a crueldade

Acabar com a crueldade no turismo com animais depende de regulamentação e fiscalização dos governos, que muitas vezes precisam auxiliar a população pra obter outra fonte de renda. Depende também das decisões éticas por parte dos operadores de turismo e indivíduos que trabalham nessa indústria.

Mas também depende em grande parte de nós, viajantes. Afinal, enquanto existir gente procurando essas atrações, esse tipo de turismo vai continuar.

Já li relatos de situações em que guias e motoristas de safaris se aproximam demais dos animais, saindo das estradas demarcadas, porque os turistas queriam ver os bichos mais de perto e tirar boas fotos. “As empresas querem manter os turistas felizes. E enquanto os turistas continuarem fazendo pedidos além do razoável, motoristas vão continuar quebrando as regras”, opina o autor do segundo texto.

Cabe à gente se perguntar: vale a pena se aproveitar de outro ser vivo pra nosso entretenimento?

Se quiser saber mais sobre o assunto, leia também o Guia para ser um turista amigo dos animais. Indico, ainda, o relatório sobre o impacto do turismo com animais na vida silvestre da Amazônia. Para finalizar, leia o relatório sobre o problema dos mamíferos marinhos em cativeiro. Todos foram publicados pela Proteção Animal Mundial.

*Fonte: por Luisa Ferreira – blog Janelas Abertas

*Imagem: World Animal Protection

Obs.: o conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor

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