Como reduzir a poluição dos oceanos mesmo estando longe da praia

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Você reside em um local longe do litoral e quer reduzir a poluição dos oceanos? Saiba que é possível! Com algumas atitudes, há como evitar que resíduos se acumulem nos mares, salvando a vida de animais e poupando o meio ambiente. A engenheira ambiental Júlia Alvarenga explica as alternativas a seguir.

*Por Júlia Alvarenga

Hoje, se fala muito em poluição dos oceanos, animais marinhos morrendo por excesso de poluição plástica, proibição de canudinhos e os impactos da poluição plástica no mar para os seres humanos. Mas, pouca gente deixa claro que quem mora longe da praia pode e deve contribuir para amenizar esse problema.

Poluição dos oceanos: por que tem tantos resíduos no mar?

O ciclo funciona assim: a gente se descuida de um resíduo na rua, por menor que ele seja. Depois, bate um vento ou uma chuva e leva esse “lixinho” embora. Esse resíduo tem grandes chances de cair, em algum momento, em um rio na sua cidade ou em bocas de lobo que recebem as águas de chuva.

As ruas das nossas cidades são projetadas com uma inclinação de forma que a água da chuva escorra naturalmente para as bocas de lobo. Essas estruturas foram projetadas para captar somente água de chuva e encaminhá-la para as galerias pluviais, que são um conjunto de tubulações que encaminham a água da chuva para os rios.

Como essa água é teoricamente limpa, o objetivo principal desse sistema é impedir os alagamentos nas cidades, enviando a água de chuva captada diretamente para os corpos d’água.

Isso significa que aquele “lixinho” que foi parar na sarjeta, vai acabar no rio mais próximo. Vale lembrar, ainda, que estas galerias recebem as águas de várias outras bocas de lobo e, consequentemente, outros resíduos leves espalhados pela cidade, que foram carregados pela ação da chuva e dos ventos.

A poluição alcança o oceano mesmo que sua origem seja distante

“Tá, e daí? Belo Horizonte está a centenas de quilômetros do mar, por exemplo.” Sim, mas seu “lixinho” vai parar no oceano mesmo assim. Os rios percorrem um longo caminho até chegar ao mar e, nesse percurso, carregam consigo um pouco de tudo: sedimentos, plantas e, infelizmente, resíduos.

Os rios que passam em Belo Horizonte, por exemplo, deságuam no rio São Francisco, que encontra o mar apenas na divisa entre Sergipe e Alagoas. Imagina por quantas cidades o rio São Francisco passa e o tanto de resíduos que ele pode carregar para o mar nesse trajeto!

Vale lembrar que o principal poluente dos oceanos hoje é o plástico, que tem ganhado notável visibilidade como problema ambiental nos últimos anos e já é considerado por muitos ativistas ambientais e governantes como o vilão da poluição marinha.

Uma vez que os resíduos plásticos chegam aos mares, demoram séculos para se decompor, liberam toxina, depois intoxicam peixes e aves.

Poluição dos oceanos: a sujeira chega aos mares por diversos caminhos

Voltando ao que falei no início, sobre se descuidar de um resíduo na rua, eu não me referia apenas a jogar no chão, porque não é só assim que causamos o problema.

Pense nas vezes que você vai a uma lanchonete, com mesas ao ar livre. Se você deixa o copo em cima da mesa, as chances que ele voe até alguém recolher o lixo que você deixou lá são muito grandes.

É assim que você, que mora em uma cidade longe da praia, contribui com a poluição dos oceanos. Cerca de 80% dos resíduos presentes no mar hoje são provenientes de fontes terrestres. Isso significa que sua contribuição pode ser muito importante.

O que podemos fazer para reduzir a poluição dos oceanos?

Se você quer contribuir para reduzir os impactos dos nossos resíduos sólidos no meio ambiente, inclusive nos oceanos, o primeiro passo é se responsabilizar pelo seu consumo e descarte de materiais.

Lembra dos “Rs” que aprendemos no colégio? Hoje em dia, alguns pesquisadores já falam em até 9 — na minha época eram só 3. Desses, os que considero mais importantes são: Repensar, Reduzir, Recusar, Reaproveitar e Reciclar.

Na primeira vez que ouvi falar dos “Rs”, eu os achava meio vagos. Mas, com o crescimento do movimento #desperdiciozero (do inglês #zerowaste), eles passaram a fazer muito mais sentido pra mim.

É necessário repensar a nossa forma de consumo, priorizar itens produzidos localmente e itens sem embalagens ou com embalagens de rápida decomposição.

Assim, devemos recusar itens novos descartáveis (que podem ser substituídos por reutilizáveis) ou desnecessários. Precisamos reduzir o consumo de forma geral, abolindo os supérfluos.

Ainda, temos que tentar reutilizar nossas coisas ao máximo, mesmo que não seja com o mesmo fim para o qual o objeto foi projetado e comprado.

Finalmente, não podemos esquecer da importância de reciclar os materiais para que possam retornar para a indústria e, posteriormente, para os cidadãos, no intuito de evitar a extração de mais matéria-prima.

Faça o máximo possível para evitar a poluição dos oceanos

Por fim, deixo aqui algumas reflexões que sempre me vem à cabeça quando o assunto é poluição por resíduos sólidos.

1) A reciclagem sozinha não vai salvar o mundo. Nós — seres humanos — consumimos muitos recursos em um tempo menor que o necessário para que a Terra consiga repor. Por isso, é fundamental, além de investir em reciclagem, repensar nossos hábitos de consumo. Um material que leva séculos para se degradar não é adequado para ser usado e depois ir para o “lixo”.

2) É muito importante levar o debate para o máximo possível de pessoas. Converse sobre o problema dos resíduos sólidos com seus amigos, familiares, professores e colegas de trabalho. A responsabilidade também é do consumidor. Quanto mais gente engajada em mudar seus hábitos, maiores são as chances de diminuir a poluição dos oceanos.

3) Faça tudo o que for possível, mas lembre-se que o problema é sistêmico. Ao repensarmos nosso consumo, atuamos de forma a dar um recado às marcas, mostrando quais são nossas prioridades. No entanto, além de praticar os 5 Rs, devemos votar em pessoas que se preocupam com as causas ambientais. Precisamos cobrar dos governantes atitudes responsáveis no que diz respeito à poluição e proteção dos recursos naturais.

Júlia Alvarenga é engenheira ambiental especializada em mudanças climáticas, avaliação de ciclo de vida, economia circular e smart cities.

*Fonte: Júlia Alvarenga

*Imagem: divulgação

Obs.: o conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor.

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