Pesquisas em animais e feminismo: fêmeas são usadas como máquinas reprodutivas

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A cientista Mary Kate Fain vivenciou, na sua pós-graduação, experiências traumatizantes em relação às pesquisas em animais. Neste artigo, ela conta detalhes de como as fêmeas eram exploradas e separadas de seus filhos, sem nenhum tipo de conforto emocional. Ela faz um paralelo, ainda, com os abusos contra esses animais do sexo feminino e a opressão do patriarcado nas mulheres humanas.

*Por Mary Kate Fain

Quando eu era estudante de pós-graduação no Ithaca College (EUA), recebi a oportunidade de conduzir uma pesquisa original durante o verão do primeiro ano. Fiquei emocionada por ter uma chance que a maioria dos alunos não tem. Achei que trabalhar no laboratório de neurociência comportamental da minha universidade seria interessante. Mas, na realidade, eu não tinha ideia no que estava me metendo e quão horrível e traumatizante seria essa experiência.

Olhando para essa vivência seis anos depois, agora como uma feminista, uma coisa sobressai sobre o debate em torno de pesquisas em animais, que é frequentemente ignorado: os direitos reprodutivos das mulheres não-humanas envolvidas.

Pesquisas em animais: a dor da separação materna

O meu trabalho em particular teve como foco examinar os efeitos de algo chamado “protocolo de separação materna”. Era um método para induzir nos ratos jovens uma experiência de vida comparável ao trauma da primeira infância, como negligência ou abuso dos pais, para podermos estudar o impacto dessa experiência nos comportamentos da vida adulta (alcoolismo e agressão, por exemplo).

Esse protocolo envolvia levar filhotes recém-nascidos para longe de suas mães durante três horas por dia. Era, obviamente, traumático para os filhotes. Mas, eu estava interessada em estudar o impacto que esse protocolo tinha sobre as vítimas colaterais: as mães. Como elas se sentiam sobre essa separação? Era tão traumático para elas?

Embora tenha deixado o laboratório antes de publicar meu trabalho, estudos-piloto demonstraram que sim, essa separação também era traumática para as mães. Eu não precisava de uma análise de dados para me dizer isso. Todos os dias, quando eu ia pegar os bebês de suas mães, elas lutavam comigo, choravam e gritavam, enquanto observavam seus filhos serem levados para longe delas. Era claro que elas não queriam isso.

Pesquisas em animais: abusos físicos e psicológicos

O que fizemos com todos os ratos neste laboratório foi claramente uma tortura e algo antiético por qualquer padrão antiespecista. Mas, a opressão específica que as ratas experimentaram era única e traça um paralelo direto com o modo como as mulheres humanas são controladas e abusadas por sua capacidade de reproduzir.

Os principais assuntos de pesquisa em nosso laboratório foram os ratos machos. Então, as fêmeas foram usadas apenas como acessórios e ferramentas para alcançar os resultados finais.

A maioria delas começou a ser usada como companheira de um macho. Esse processo de acasalamento levava o rato a se tornar mais agressivo quando outro macho entrava em seu território.

A fêmea era submetida a viver em uma “caixa de sapatos” de laboratório, sem liberdade, tempo de brincadeira ou socialização com ninguém, exceto seu companheiro, apenas para que ele se tornasse mais agressivo. Quando ela finalmente engravidasse, seu tempo sob o microscópio começaria.

Nós só comprávamos ratos uma ou duas vezes de criadores de animais para colocar as pesquisas em funcionamento. Caso contrário, o laboratório era autossustentável. Apesar do fato de que estávamos matando centenas de ratos regularmente, nós continuávamos criando cada vez mais, usando as fêmeas como máquinas, deixando-as grávidas assim que pudessem.

Elas, é claro, não tinham escolha nesse processo. Ao contrário da natureza, em que poderiam escolher mais livremente seus parceiros, nós aleatoriamente designávamos companheiros e colocávamos todos juntos na mesma caixa de sapatos.

Elas não tinham onde correr ou se esconder. Eventualmente, o macho a dominaria. Os gritos de dor vindos da sala de acasalamento deixavam claro que esse não era um ato consensual. Se uma das fêmeas não conseguisse reproduzir em um período de tempo razoável, ela era considerada “defeituosa” e, então, descartada.

Pesquisas em animais: detalhes da separação entre mães e filhos

Quando uma ninhada nascia, o macho era retirado da caixa (ratos machos são conhecidos por canibalizar seus bebês) e o protocolo de separação materna começaria, com seus bebês se tornando a próxima geração de sujeitos. Se o filhote fosse do sexo masculino, ele seria um dos estudados no teste de agressão. Se era fêmea, estava condenada ao mesmo destino que sua mãe.

As ninhadas participantes do protocolo de separação materna tinham que ser todas da mesma quantidade. A maioria dos nascimentos variava entre 8 e 12 filhotes. Então, eles eram “abatidos” até ficarem em seis.

Isso envolvia cortar as cabeças dos recém-nascidos vivos com uma tesoura. Apesar do fato de que eu estava estudando o impacto da separação materna nas mães, o efeito desse processo de abate sobre o bem-estar materno não foi considerado na época.

A maioria das mães foi “eutanasiada” logo após o término do estudo em sua ninhada, e o ciclo recomeçaria com suas filhas.

Essas mães eram tratadas como máquinas de fazer bebês, e um mero inconveniente para a pesquisa primária que acontecia no laboratório: danos colaterais na guerra contra o trauma humano e a agressão.

O efeito do acasalamento forçado, abate e protocolo de separação materna na mãe nunca foi considerado. A dor delas foi completamente despercebida, à medida que nos concentrávamos nos indivíduos do sexo masculino.

Pesquisas em animais e a relação com a opressão do patriarcado da sociedade

Fêmeas de todas as espécies são oprimidas pela capacidade de se reproduzir. Esta é a causa raiz do patriarcado e a agenda não tão oculta por trás da misoginia. Embora seja muito menos direta, a heterossexualidade compulsória forçou as mulheres humanas a se acasalarem e se reproduzirem, de modo que um mundo dominado pelos machos pudesse continuar a gerar mais indivíduos do sexo masculino para lutar em suas guerras e produzir seu trabalho. As fêmeas são reflexões posteriores, condenadas a seguir o mesmo ciclo opressivo de sua mãe e avó.

Os ativistas dos direitos dos animais reconheceram há muito tempo a conexão entre o feminismo e as indústrias de laticínios e ovos, uma vez que esses setores abusam dos sistemas reprodutivos femininos.

Mas, além desses exemplos mais claros da exploração feminina, encontram-se, indústria após indústria, fêmeas sendo usadas como máquinas de reprodução.

A vivissecção não é o único campo em que isso existe. A criação forçada acontece em todos os lugares onde não-humanos são abusados, de fazendas a lojas de animais.

Nas populações humanas, a criação forçada também pode surgir em forma de casamento infantil, falta de acesso ao controle de natalidade e normas culturais que pressionam as mulheres a engravidar.

Talvez examinar como as mulheres não humanas são usadas dessa maneira pode nos ajudar a enxergar além da misoginia direta do estupro e do sexismo no local de trabalho à causa básica do patriarcado: o poder reprodutivo feminino.

Mary Kate Fain é formada em Ciência da Computação, com especialização em Neurociência e Psicologia Aplicada.

*Fonte: Mary Kate Fain

*Imagem: divulgação



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