Fora do nicho: consciência vegana reposiciona mercado

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* Por Fernanda Franco Cannalonga

Pessoas e marcas reconhecem que veganismo está além da alimentação — também é sobre ética, política e meio ambiente.

Alguma coisa mudou recentemente na forma como nos alimentamos. Hoje não se trata apenas das preferências do paladar ou de critérios nutricionais. Aspectos éticos e políticos ganharam relevância nas mesas, nas geladeiras e nos cardápios. A maior evidência disso é o veganismo, movimento mundial que busca abolir a exploração animal. Apesar de ser primeiramente associada à vertente alimentar, a filosofia vegana tem um comprometimento ainda maior.

Quase todo mundo tem alguma ideia do que isso quer dizer, mas a definição exata do termo ainda pode gerar dúvidas. Veganismo é um modo de viver que baseia suas escolhas na ideia de que os animais têm direitos e não devem ser considerados “coisas”, ou seja, não devem servir à exploração ou ao consumo. Veganos recusam, dentro do que é possível, qualquer produto de origem animal. Eles não comem carnes, leite, mel ou ovos. Não vestem peles, couro ou seda. Além disso, rejeitam produtos que tenham sido testados em animais.

Questões que tangem o direito e a ética animal são discutidas há muito tempo. O termo “veganism” foi cunhado em 1944 pelo inglês Donald Watson com o objetivo de distinguir os vegetarianos que não consumiam ovos e laticínios. Mas por que só agora, mais de 70 anos depois, o veganismo deixa de ser tema de nicho e começa a penetrar na sociedade? Provavelmente porque novos argumentos se somam ao da causa animal: hoje, ser vegano vai além de reconhecer a diferença moral entre uma maçã e um bife.

O futuro é vegano

Aquecimento global, pressão sobre o clima, falta de água. Os assuntos relacionados ao meio ambiente são urgentes e relevantes. Em 2013, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) publicou um relatório que aponta a criação de gado como responsável por 14,5% da emissão de gases de efeito estufa, principalmente o metano, que tem um impacto 25% maior que o do dióxido de carbono. Lançado no ano seguinte, o documentário Cowspiracy acusa a agropecuária intensiva de esgotar os recursos naturais do planeta e as organizações ambientalistas de ignorar este fato.

Não é coincidência que, quando a preocupação com o meio ambiente começa a ser relacionada com o veganismo, o interesse por ele comece a crescer.

Se no Brasil faltam estudos que quantifiquem a proporção de pessoas adeptas deste estilo de vida, as análises de buscas com termos como “vegan”, “veganismo” e “vegano” no Google Trends mostram o aumento do interesse pelo tema, em um ritmo acentuado especialmente nos últimos três anos.

O editor da revista canadense Véganes se pergunta se a geração vegana poderia ser outra que não a dos Millennials. No Canadá, 12% dos jovens entre 18 e 34 anos se declaram vegetarianos. Diz ele:

“Estes jovens cresceram sabendo de uma crise ecológica e não podem virar as costas para o meio ambiente.”

São os jovens (veganos) que criam veículos que trazem debate e inspiração, e fazem isso de maneira mais autêntica do que a mídia tradicional. A internet está recheada de incentivos para a mudança, de canais de receitas a revistas digitais que mostram o que comem, o que vestem e como vivem os veganos.

Muitos canais hoje mostram como vivem os veganos nos mínimos detalhes, o que faz com que este caminho pareça atraente e seja mais acessível. A mídia tradicional reflete este interesse, sobretudo nas colunas de celebridades, que amplificam o apelo por este estilo de vida, mesmo que seja difícil identificar quem se associa ao tema legitimamente e quem busca apenas impulsionar a própria imagem. Alguns famosos usam sua influência, tempo e dinheiro para promover a causa, enquanto outros divulgam o veganismo, precipitadamente, como uma nova dieta para atingir o “corpo dos sonhos”.

Assim como as pessoas, algumas marcas enxergam a necessidade de se reposicionar. É o caso da americana Elmhurst, que, com uma tradição de 90 anos na venda do tradicional leite de caixinha, passou a vender apenas leites vegetais, feitos de castanha de caju, amêndoas, nozes ou avelãs. Henry Schwartz, o CEO da empresa, afirma que o leite de vaca está “fora de moda”.

Um estudo da Nielsen confirma que os consumidores estão dispostos a colocar seu dinheiro onde está seu coração e seus ideais. Cabe às marcas veganas, ou que estão se tornando veganas, educar o público e mostrar que essa ideia vale o investimento.

The Vegan Network é uma revista digital que mapeia pessoas que se tornaram veganas, criando retratos inspiracionais que mostram a diversidade dentro deste movimento.

Alana Rox compartilha suas receitas veganas no Instagram @theveggievoice, em seu livro e em seu programa no canal GNT, “Diário de uma vegana”.

– As irmãs multimedalhistas olímpicas Venus e Serena Williams provam que há espaço para o veganismo no esporte de alta performance.

– Os novos produtos da Elmhurst levam apenas ingredientes naturais — ficam de fora os estabilizantes, corantes e emulsificantes.

Teva, restaurante vegetariano do chef vegano Daniel Biron, no Rio de Janeiro: as preparações levam ingredientes frescos e orgânicos.

Insecta Shoes é uma das primeiras marcas brasileiras a unir a causa vegana e sustentabilidade. Os calçados são feitos com tecido reciclado de garrafa PET ou roupas antigas.

– Paris ganhou uma cremeria vegetal. A marca Jay & Joy vende uma variedade de queijos e iogurtes à base de castanhas, em diferentes sabores e texturas.

The Coconut Collaborative é uma marca de iogurtes alternativos feitos com leite de coco, um negócio sustentável que cuida da sua cadeia de fornecimento.

– A marca de calçados Vert tem uma linha vegana feita com o tecido tecnológico B-mesh: cada par recicla 15 garrafas PET.

Queiju, de Florianópolis, produz pastas vegetais fermentadas que lembram queijos cremosos.

– Toda a linha de cosméticos da americana Herbivore Botanicals é vegana e natural, desde os sprays para cabelo até óleos faciais inspirados em pedras preciosas.

Enquanto mais pessoas são atraídas pelo movimento, os veganos seguem ampliando o espectro de suas preocupações e levantam questões que unem a ética animal à ética humana e ambiental, como o ativismo interseccional e o direito universal à alimentação saudável. O mundo atual funciona em um sistema ineficiente e desequilibrado, ainda muito dependente de técnicas de produção exploratórias. Resta saber se o argumento do meio ambiente será suficiente para desenvolver uma sociedade protetora — dos animais, das pessoas e do seu próprio futuro.

*Fonte: Ponto eletrônico

Imagem: Sara Antoinette Martin

Obs: O conteúdo do artigo é de responsabilidade do autor.



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