A exploração dos animais nas artes

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*Por Marcya Harco

“Primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem. Agora é necessário civilizar o homem em relação à natureza e aos animais.” (Victor Hugo)

Parte I – Da caverna ao picadeiro

A exploração dos animais já pode ser detectada desde a arte rupestre, quando as composições das pinturas e gravuras eram gravadas com pigmentos e incisões na própria rocha. Além de carvão, argila e minerais triturados, constata-se que nos veículos para pigmentação foram usados sangue, excrementos e gordura animal, ceras e resinas vegetais, clara ou gema de ovos e saliva humana. Egípcios, chineses, gregos e romanos ainda utilizaram em seus desenhos, gravuras e pinturas, pigmentos à base de ovos de animais e de moluscos.

sacrificio-animal-arte-A cerimônia nas Grandes Dionisíacas (festas em homenagem ao deus Dioniso) de Atenas, era acompanhada do sacrifício de um animal, realizado ao redor da timelê (altar de sacrifício), sendo o bode, o animal sacrificado em oferenda a Dioniso.

No Coliseu de Roma, a partir da sua inauguração, ano 80 d.C., eram realizados inúmeros espetáculos, incluindo jogos, combates de gladiadores, lutas de animais, execuções, batalhas navais, caçadas e outras atividades consideradas divertimentos. Nos espetáculos com a temática da caça, venatio ou bestiarium, os animais não-humanos considerados selvagens, eram os protagonistas. Importados da África, faziam parte do grupo dos grandes felinos, como leões, leopardos e panteras.

coliseu-arte-espetaculoTodavia, rinocerontes, hipopótamos, elefantes, girafas, crocodilos e avestruzes também eram explorados nos espetáculos.

As caçadas, tais como as representações de batalhas famosas, eram concebidas em cenários onde figuravam árvores e edifícios removíveis, representados em escalas gigantescas. Para se ter ideia da dimensão, Trajano celebrou a sua vitória em Dácia no ano 107 com concursos envolvendo 11.000 animais e 10.000 gladiadores no decorrer de 123 dias.

A história dessa arena sangrenta continuou durante os reinados de vários imperadores e com o surgimento da nova religião cristã, suscitou histórias de horror tanto com as mortes de mártires cristãos no Coliseu de Roma (90 d.C), como a ação dos gladiadores que se dispunham a provar sua coragem e força, em lutas travadas com animais selvagens e exóticos, vitimando-os aos milhares com mortes cruentas.

cobra-exploracao-animalA história do circo (do latim circus, origem etimológica da palavra circunferência) está amplamente ligada à exploração dos animais. O Circo Máximo, em latim Circus Maximus, inaugurado no século VI a.C., um dos primeiros de que se tem registro histórico, era constituído de uma arena na antiga Roma. A atração principal eram as corridas de carruagens e, com o tempo, apresentações de animais selvagens entre outros entretenimentos.

Mais adiante, as primeiras companhias circenses se multiplicavam pelo mundo. Na busca por novos territórios e extração de riquezas nativas, as grandes navegações levaram ao aprisionamento milhares de animais dos continentes americano, asiático e africano como onças, macacos, tigres, elefantes, girafas, ursos, aves e rinocerontes. Conduzidos nos porões das caravelas, de forma extremamente precária, muitos não sobreviviam ao cativeiro e aos maus-tratos. Os mais resistentes eram utilizados como peças de ornamento e de ostentação pelas cortes ou eram destinados aos circos.

arte-cavalo-animalA formação do circo moderno europeu, com picadeiro, é atribuída a Philip Astley (1770), após a Revolução Francesa. Além das variedades circenses, Astley encenou pantomimas e hipodramas. O hipodrama, ou drama equestre, tinha o cavalo como “ator principal”. Para o romano, o cavalo se mostrava em força física e virilidade, como veículo militar que se transformava em disputa nas corridas. No circo moderno, o cavalo não é sinônimo de força e não há a transposição da guerra para o esporte. O adestramento do animal, na visão de Astley e de seus simpatizantes, revelava potencialidades que permitiam aos artistas desempenharem suas habilidades, tanto no chão como no dorso do cavalo.

Mais tarde o cavaleiro italiano Antonio Franconi (1738-1836), introduziu o adestramento de pássaros e pombos, robustecendo no circo, gradativamente, o domínio incisivo do humano sobre o animal não-humano.

Acerca da autêntica origem do circo é significativo destacar o argumento do promotor de justiça brasileiro, Laerte Fernando Levai, na ação civil pública, ajuizada pela Promotoria do Meio Ambiente de São José dos Campos, SP, contra a empresa circense conhecida como Le Cirque, que utilizava animais em seus espetáculos. Levai transcreve citações sobre a história do circo desde Portugal no século XV/XVI:

vintage-arte-animais-escravos“Informam os registros históricos que, pelas ruas de Lisboa antiga, diversas formas de escravidão eram ostensivamente apresentadas pela Corte, em funesto desfile onde seguiam, subjugados, homens africanos e animais selvagens arrancados de sua terra. D. Manuel, conhecido como o Venturoso, durante seus habituais passeios do Paço da Ribeira até o Rossio, gostava de se fazer seguir por um exótico cortejo zoológico, repleto de paquidermes acorrentados, felinos enjaulados, símios barulhentos e pássaros aprisionados, todos vindos de lugares distantes (in “A Fauna Exótica dos Descobrimentos”, Portugal, Edição ELO, 1993) Muitos desses animais cativos passaram a ser exibidos publicamente, ensejando demonstrações de coragem e destreza do domador, o qual os submetia a dolorosos procedimentos de adestramento. Aqueles que não resistiam ao cárcere e aos castigos físicos encontravam apenas na morte a sua libertação.”

rodeio-cruel-sofrimento-animalO hábito de se entreter às custas do terror, da dor e da morte de animais deu origem a inúmeras práticas cruéis, tais como os rodeios, vaquejadas, touradas, caça, rinhas, espetáculos circenses e performances na arte contemporânea que se valem dos mesmos. Visando legalizar tais práticas, ao incentivo de sua indissimulável crueldade, o ser humano criou o pretexto de realizá-las em nome da cultura, da arte e do desporto.

tourada-crueldade-animalÉ terrificante pensar que uma significativa parte da sociedade, ainda hoje, possa compactuar com uma prática que aprisiona, mutila e ridiculariza animais, aprazerando-se com o que é passível de repúdio. Acerca dessa reflexão, escreve o zoólogo Desmond Morris no seguinte texto inserido na introdução da obra The rose-tinted menagerie de William M. Johnson:

“A ideia de achar graça na visão de animais selvagens coagidos a agir como desajeitados seres humanos, ou a excitação ao ver perigosas feras reduzidas a covardes retraídos por causa de um treinador com chicote em punho é primitiva e medieval. Tal visão de mundo advém do velho conceito de que somos superiores às outras espécies e que temos o direito de manter nosso domínio sobre elas. O primeiro auge desse conceito foi visto durante os massacres no circo romano e, desde então, tem sido mantido vivo através dos ensinamentos religiosos que insistem em colocar o gênero humano acima e apartado de todo o resto da criação.”

zoo-circo-exploração-arteOs animais humanos e não-humanos se trespassam desde a mais tenra existência. A presença histórico-dramática do animal não-humano está vinculada ao domínio e exploração de seus corpos pelo ser humano, em recorrentes manifestações artísticas, literárias, ritualísticas e religiosas desde a antiguidade. Assim sendo, torna-se urgente a abolição da escravatura animal não somente nas artes, mas em todos os âmbitos da existência.

Continua…

 

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Bibliografia

BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro. São Paulo, Perspectiva, 2010.
BOLOGNESI, Mário Fernando. Palhaços. São Paulo, UNESP, 2003.
FERRONHA, António Luis. A fauna exótica dos descobrimentos. Lisboa, Edição Elo, 1993.
JOHNSON, William M. The Rose-Tinted Menagerie. Londres, Iridescent Publishing, 2012.
MELLO, V. M. & SUAREZ, P. A. Z. As Formulações de Tintas Expressivas Através da História. In: Revista Virtual de Química, 2012; 4,5 (1):2-12.
http://www.uipa.org.br/circo-de-animais-reclusao-e-castigo/

Imagens: divulgação

Marcya-Harco-atrizMarcya Harco é atriz, diretora de teatro e arte-educadora. Fundadora integrante da Cia. Lúdica de teatro e do projeto Vegan VJ Theatre. Licenciada em Artes Cênicas pela Faculdade Paulista de Artes e pós-graduada em Direção Teatral pela Escola Superior de Artes Célia Helena.

Obs: O conteúdo deste artigo é de responsabilidade do autor.



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