Entrevista com os atores e ativistas veganos Marcya Harco e Paulo Drummond

0

Marcya Harco e Paulo Drummond são veganos, atores e ativistas em prol dos animais através da arte. Eles idealizaram e criaram, entre outros projetos, o Vegan Vj Theatre, a Cia Lúdica e, recentemente, o Projeto PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais, que lançou a primeira coleção brasileira de contos veganos para crianças.

Assista ao vídeo que eles prepararam para o Youtube do Mimi Veg (inscreva-se!) e descubra mais sobre o trabalho que realizam na entrevista abaixo:

1- Como vocês chegaram ao veganismo e o que os motivou a se tornarem veganos?

Marcya: Quando eu tinha 9 anos, viajei com meu pai, meu irmão e um amigo da família para o interior de São Paulo. Fizemos uma parada para almoçar em um restaurante. Ao fundo, havia uma pequena fazenda. Pela primeira vez, conheci uma vaca ao vivo. Antes só tinha visto pela televisão e desenhos em livros. Quando a olhei, Marcya Harcofiquei encantada com a sua face, o seu tamanho, a sua pelagem, as suas cores. O amigo do meu pai disse assim: “Aí está o nosso churrasquinho”. Eu era tão ingênua que não acreditei. E depois, confirmaram: “Ela vai virar churrasco”. Naquele momento, olhei para a linda vaca à minha frente e vi lágrimas escorrendo de seus olhos. Fiquei desesperada. Inconsolável. Quando sentei na mesa do restaurante, comi somente arroz com alface.

Nunca mais comi carne. Minha mãe e meu pai ofereciam carne, mas eu fui rebelde e não comia mesmo. Depois deixei de comer laticínios, já adulta, quando descobri o sofrimento de todos os animais explorados pela indústria da carne. A imagem da vaquinha chorando ainda é marcante para mim. Naquele momento, senti um pedido de socorro silencioso e expresso unicamente pelo olhar dela. Entendi imediatamente que os animais eram como nós, pensavam e tinham muitos sentimentos.

Paulo: Eu já vinha questionando a minha alimentação desde o começo dos anos 90. Como tive uma vida boemia na juventude e na fase de jovem adulto, quando fui para o Rio de janeiro estudar teatro, já comecei a ter uma percepção sobre como a profissão que escolhi para viver iria exigir de mim, enquanto manutenção da saúde para enfrentar os desafios que vinham pela frente.

Claro que, naquela época, era uma coisa muito velada, algo no fundinho da minha consciência que avisava: presta atenção no que você vai fazer, porque isso vai definir se você vai conseguir ou não encarar a difícil vida do teatro. Muito embora, na real, eu não abrisse mão de uma boa noitada, exagerada de comes e bebes carnistas. Porém, sempre que ultrapassava um certo limite de consumo, vinha o aviso do corpo cobrando cuidados e um arrependimento de ter maltratado o meu corpo tanto na noite passada. Vinha a falinha lá do fundo: Por aí você não chega nem a mais 10 anos. O que te move? O que te faz acordar de manhã com toda a energia e disposição, que te faz atravessar as horas com uma sensação de bem-estar? E, ao final do dia, mesmo cansado, você sente que valeu a pena? É o trabalho que você escolheu pra si. Então, ele é a sua prioridade, faça tudo pela sua saúde, para que você possa realizar plenamente a sua potência de vontade. Para favorecer o seu propósito maior, a vida dedicada ao teatro.

Paulo DrummondCom esse permanente grilo falante na minha cabeça, e a luta diária da vida me confirmando os obstáculos a serem superados, fui construindo uma convicção sobre o meu próprio agir: se faço o que amo, não posso pensar em uma aposentadoria, por exemplo. Não tem sentido. Então, a minha postura tem de ser a de me manter sempre muito inteiro e saudável, para continuar sempre fazendo o que amo. E eu não conseguiria viver num mundo sem fazer o que amo.

Mas até aí, a minha decisão era por uma vida mais natural. Leite fresco, carne orgânica, ovo de galinha de quintal, leitão alimentado com nozes. E isso para mim já era muito diferente da vida da minha infância e juventude em Sete Lagoas onde, naturalmente, conheci e convivi muito de perto com os mais diversos tipos de assassinatos (em matadouros, fazendas, rodeios, etc. Para mim era absolutamente normal quando via um boi morrer a golpes de marretadas em sua cabeça, ou presenciar o punhal sendo cravado no coração do porco, ou degolar galinhas (isso fiz muitas vezes!) como também matar os coelhos brancos que criava, com uma porretada certeira na nuca. Nem os pombinhos escapavam dos nossos bodoques ou espingardas de ar comprimido para serem assados na fogueira improvisada. Isso significa que o pensamento de Descartes, de que animais são máquinas sem dor que existem para alimentar os homens, banhou como uma imensa neblina, através dos tempos, por todo o universo. Como chegou em Sete Lagoas, chegou em todos os lugares.

Não nego que, em um determinado dia, a morte de um querido coelho me travou com um nó na garganta. Parece que por um breve momento, aquela dor superou a densa neblina de Descartes, tocou no fundo do meu coração e triscou a minha consciência. Como poeta, transformei aquela dor em versos e segui meu caminho. No fundo, aquela dor. Porém, só fui chegar ao veganismo quando conheci Marcya Harco. Com ela, tive as primeiras noções dos sentimentos e da dor dos animais. O que para mim parecia ser estranho, quando a via evitar matar uma formiga, salvar uma barata, foi o início do que digo hoje ser uma libertação da densa neblina. Nesse momento então, eu já não estava mais preocupado com a minha saúde. A minha preocupação era a libertação dos animais. A abolição da escravidão animal. E o único caminho alimentar para isso é o veganismo.

Foi assim que, compreendendo os sentimentos, a consciência, o medo, a angústia, a dor, o sofrimento, a exploração, os abusos cometidos com os animais, me tornei vegano, em 2002. Eu não posso submeter qualquer outro ser às condições e sensações que não desejo para mim.

2- Falem da alimentação de vocês no dia a dia e de que forma conciliam com a rotina movimentada dos trabalhos que realizam.

Marcya: Alimentação vegana. Procuro me alimentar o mais natural possível, sempre evitando alimentos processados e industrializados. Leio os rótulos dos produtos para verificar se não há algum ingrediente de origem animal e se não tem muita química, como conservantes, estabilizantes, corantes, etc.

alimentacao veganaA marmita é sempre um luxo, quando se pode levar nos trabalhos, aulas, viagens. Se não for possível, procuro um lugar que tenha refeições simples, como arroz e feijão sem ingredientes oriundos de animais e legumes e verduras cozidos, sem temperos. Isso, para evitar as contaminações por alimentos que nem sempre são bem lavados. Também utilizo alimentos, ervas e especiarias ayurvédicas, que são extensamente empregadas na medicina ayurveda, da Índia.

Paulo: Hoje pratico uma alimentação que chamo de “vegana ayurveda”, muito embora o Ayurveda em se não seja vegano, é possível seguir as orientações alimentares dessa incrível ciência, que reúne filosofia, medicina e alimentação com o alimentacao veganaveganismo. Nesse sentido, posso afirmar que tive um ganho maior ainda, em termos de bem-estar e saúde, adotando também o ayurveda. Por essa razão, não guardamos comida, nem congelamos, nem comemos nada industrializado, empacotado, embutido, enlatado, etc. A comida para ser boa tem que ter prana. E só pode ter prana se for fresca. É lógico que de vez em quando cometi uns deslizes. Mas até para quem come fora o Ayurveda tem a sua ajudinha, que são as masalas, para auxiliar na digestão.

3- Como o veganismo mudou a vida de vocês e influenciou no ativismo em prol dos animais que realizam através da arte?

Marcya: O veganismo é uma filosofia de vida que, gradativamente, vai colaborando para uma maior consciência sobre a própria existência, a natureza e o universo. Eu aprendi e continuo aprendendo muito. Aprendi a entender melhor o sentimento e as emoções das pessoas humanas e não humanas (os animais).

Comecei a observar o quanto a vida é imprescindível para qualquer animal, não importando o seu tamanho. Sempre brinco com as crianças, durante as minhas aulas de teatro, orientando-as para que não pisem nas formiguinhas, nem nos bichinhos que surgem em nosso caminho. Eu digo que eles têm suas vidas pessoais, família, seus relacionamentos, lutam em busca da comida (trabalham) para sobreviver e, quando podem, se protegem com medo de serem machucados ou mortos. Eles têm suas estratégias de vida, suas culturas. É complexo entender, mas para qualquer animal, a vida é uma preciosidade, por isso, todos esforçam-se contra o sofrimento e buscam o seu bem-estar. Poderíamos chamar isso de busca pela felicidade. E essa busca é inerente a todos os seres vivos.

Marcya HarcoSobre o envolvimento com o ativismo, ou melhor, o artivismo (termo que corresponde à “arte” e ao “ativismo”), foi esse olhar minucioso e convicto sobre os animais, que nos aflorou uma grande empatia em relação a eles. O inconformismo de coabitarmos um planeta onde sabemos que ainda, grande parte da sociedade, de maneira consciente ou inconsciente, subjuga, financia e mantêm os animais em estado de escravidão, opressão, violência, exploração, sofrimento e humilhação incalculáveis.

A arte busca dar forma a esse sentimento de não aceitação que os corpos e mentes dos animais sejam mercantilizados como alimento, vestimenta, cosmético, remédio, transporte, entretenimento, amuleto, prazer ou qualquer outra coisa. Desse modo, o artivismo vegano possibilita ampliar o campo da percepção para possíveis questionamentos sobre o tratamento dado aos animais explorados e a sua relação com os conceitos de humanidade, senciência, antropocentrismo, justiça, empatia e compaixão.

Paulo: Mudou muito. Até porque influenciou também nos nossos trabalhos profissionais. Só para dar um exemplo: a nossa Cia., a Cia. Lúdica, já abriu mão de Marcya Harco e Paulo Drummondmais de quinhentos mil reais, por não concordar com o patrocínio, em nossas produções teatrais, de indústrias carnistas. Esta postura em prol do veganismo está fazendo com que busquemos novas formas de manutenção e sobrevivência. Além disso, como o nosso tempo é muito ocupado pelo nosso trabalho na Cia. e em outras atividades como cursos e produções que conduzimos, vimos que a única forma de ativismo que poderíamos ter seria através da arte. E a arte pode fazer coisas fantásticas pelo veganismo, no esclarecimento e no convencimento das pessoas. Assim como a educação também.

4- Contem pra gente o que é a Cia Lúdica, o Vegan Vj Theatre e o Projeto PAZ – Pessoas e Animais, AmiZades Legais.

Resposta conjunta: A Cia. Lúdica é a nossa sobrevivência e paixão. É de onde procuramos tirar o nosso pão de cada dia. É uma companhia de teatro que estará Cia Ludicafazendo 25 anos de existência no próximo ano. Temos seis espetáculos em nosso repertório. A Cia. foca em sua pesquisa o desenvolvimento do teatro tanto adulto quanto para crianças e jovens. Os seus espetáculos propõem ao espectador experiências que buscam proporcionar outras percepções sobre o teatro e a arte em seu todo, abordando-o para uma reflexão e senso crítico acerca de sua própria condição humana diante do mundo e da sociedade.

O Vegan VJ Theatre já é um projeto de teatro e de audiovisual voltado para o Vegan VJ Theatreartivismo. Por meio dele desenvolvemos cenas, performances, de expressão artística, em prol do veganismo e da abolição da escravidão animal. Dependendo do momento e do motivo, pode ser uma cena ou ação de expressão dramática, épica, cômica, performativa, trágica, etc. E os trabalhos podem vir acompanhados de whorkshops e palestras. Foi assim, por exemplo, em nossa passagem pelo Festival Universo Paralello, Festival de Curitiba e Mostra Internacional de Mímica de São Paulo.

Já o Projeto PAZ – Pessoas e Animais, Amizades Legais tem como foco as ações e ideias que propagam as relações positivas existentes entre pessoas e animais em todo o mundo. Mostrar que o planeta já está em transformação. Tendo, para isso, um foco também na educação.

A primeira coleção brasileira de contos veganos para crianças do Projeto PAZ foi lançada recentemente. De autoria de Paulo Drummond, foi idealizada, organizada e diagramada por Marcya Harco e as ilustrações são de Daniela Benite.

São 6 livros: Jill, Márcia, Vera, Gary, George e Ismael. Cada livro é composto por um conto vegano, no qual o personagem protagonista é sempre um animal em situação de conflito. Os contos tratam de amizades inusitadas entre pessoas humanas e não humanas, propondo à criança uma experiência para um olhar sensível em relação a si e ao outro, na direção de um mundo mais igualitário e compartilhado.

PAZ

5- Deixem uma mensagem para as pessoas que gostariam de trabalhar com a arte em prol dos animais e não sabem que caminhos percorrer.

Marcya: Conhecer o veganismo de forma íntegra, porque somente com a prática da filosofia de vida vegana é que os animais serão considerados seres morais e poderão viver livres, em paz, com dignidade. É importante pesquisar, fruir e experimentar as linguagens artísticas como teatro, artes visuais, música, dança, performance e se aprofundar naquela que tenha mais afinidade. Propor uma arte que não seja panfletária, mas que propicie elementos disparadores para reflexão, sensibilização e conscientização humana em relação aos animais. A arte pode ser uma grande aliada no processo de transformação e mudança de paradigmas sociais e culturais.
Marcya Harco e Paulo Drummond Paulo: É importante o uso da arte no ativismo vegano exatamente pela força que ela tem em romper, ou penetrar nas couraças, nas defesas racionais, e tocar naquele ser sensível que reside no coração e na emoção desarmada de cada ser humano.

Sobre Marcya Harco e Paulo Drummond

*Marcya Harco é atriz, diretora, contadora de histórias, arte-educadora, VJ e mímica. Pós-Graduada em Direção Teatral pela Escola Superior de Artes Célia Helena. Licenciada em Artes pela Faculdade Paulista de Artes. É fundadora e Marcya Harco e Paulo Drummondintegrante da Companhia Lúdica de São Paulo e do Vegan Vj Theatre.

*Paulo Roberto Drummond é escritor, dramaturgo, ator, diretor e professor de Filosofia. Foi integrante do Grupo de Teatro Mambembe de São Paulo. Sócio-Fundador do Espaço Mambembe. É co-fundador do projeto Vegan Vj Theatre. Co-fundador, diretor e autor de todos os trabalhos da Companhia Lúdica.

Contatos e informações:

*Sites:
http://www.cialudica.com.br / http://www.pazpessoaseanimais.com

*Emails: cialudica@gmail.com / pazpessoaseanimais@gmail.com

*Facebooks:

– Paz, Pessoas e Animais: https://www.facebook.com/pazpessoaseanimais/
– Vegan VJ Theatre: https://www.facebook.com/veganvjtheatre/
– Cia Lúdica: https://www.facebook.com/cia.ludica/

*Fones

– (11) 3287.1984
– (11) 99104.2092 – WhatsApp
– (11) 98871-1413 – WhatsApp

*Instagram:

– @pazpessoaseanimais
– @cialudica

*Imagens: Marcya Harco e Paulo Drummond



Deixe seu comentário