Destruição da natureza é tão perigosa quanto mudanças climáticas, alertam cientistas

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Estudo recente mostra que a destruição da natureza está sendo causada pela exploração insustentável do mundo. Esta é uma grande ameaça para a segurança alimentar e hídrica de bilhões de pessoas em todo o planeta.

* Por Jonathan Watts

A destruição da natureza pelos humanos está esgotando a capacidade do mundo de fornecer comida, água e segurança a bilhões de pessoas. Este foi o resultado do mais abrangente estudo de biodiversidade publicado em mais de uma década.

As altas taxas de perda de biodiversidade mostram que os riscos para a humanidade estão na mesma escala de perigo que os efeitos das mudanças climáticas. Este dado foi observado pelos autores do relatório que contou com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em Medellín, na Colômbia, na semana passada.

Relatório aponta indícios da destruição da natureza no planeta

Entre as descobertas apresentadas, o destaque ficou por conta da possibilidade de extinção da pesca explorável na região mais populosa do mundo – a Ásia-Pacífico – até 2048. Outros pontos do relatório mostram que a disponibilidade de água doce nas Américas caiu 50% desde a década de 1950. E que 42% das espécies terrestres da Europa diminuíram na última década.

Ressaltando as tendências sombrias para o futuro, o relatório foi divulgado na mesma época de duas notícias impactantes. O desaparecimento de populações inteiras de aves francesas. E a morte do último macho rinoceronte-branco do norte, restando apenas duas fêmeas da espécie.

“O tempo para agir é agora ou ontem mesmo. Os governos reconhecem que temos um problema. Precisamos agir, mas infelizmente, o tempo que temos agora já não é suficiente. Devemos agir para interromper e reverter o uso insustentável da natureza. Não só pelo nosso futuro, mas pelas vidas atuais”, disse Robert Watson, um dos cientistas responsáveis pela compilação da pesquisa.

Biodiversidade do planeta está em risco

Dividido em quatro relatórios regionais, o estudo foi escrito por mais de 550 especialistas de mais de 100 países e levou 3 anos para ser concluído. Aprovado por membros de 129 países, os relatórios visam fornecer base de conhecimento para uma ação global sobre biodiversidade. A ideia é similar a mesma usada pela ONU para analisar as mudanças climáticas e definir políticas de metas para emissão de carbono.

Embora a caça muitas vezes atraia mais manchetes, como no caso do desaparecimento do rinoceronte e outros animais, as maiores ameaças à natureza em todo o mundo são as perdas de habitat, espécies invasoras, produtos químicos e mudanças climáticas.

A conversão de florestas em terras cultiváveis e o surgimento de fazendas marinhas para criação de camarão alimentou a população humana que mais do que dobrou desde os anos de 1960. No entanto, estes fatos tiveram um custo devastador para outras espécies. Por exemplo, insetos polinizadores e as plantas produtoras de oxigênio – das quais nosso clima, economia e bem-estar dependem.

A biodiversidade sofre com a ação do homem

Nas Américas, mais de 95% das pradarias foram transformadas em fazendas. Assim como 72% das florestas secas e 88% da Mata Atlântica, aponta o relatório. A floresta amazônica ainda está praticamente intacta, mas está diminuindo rapidamente e se degradando junto com o cerrado (espécie de savana tropical). Entre 2003 e 2013, a área cultivada na fronteira agrícola do nordeste do Brasil mais do que dobrou. O índice chegou a 2,5 milhões de hectares.

“O mundo perdeu mais de 130 milhões de hectares de florestas tropicais desde 1990 e perdemos dezenas de espécies todos os dias, levando o sistema ecológico da Terra ao limite. A biodiversidade e os ecossistemas que ela suporta não são apenas a base da nossa vida na Terra, mas também são essenciais para a subsistência e o bem-estar das pessoas em todos os lugares,” explicou Achim Steiner, administrador do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas.

Nas Américas – que tem cerca de 40% da biodiversidade remanescente no mundo – a população está devorando os recursos naturais. A taxa é mais do que o dobro da média global. Apesar de ter 13% da população mundial, o continente americano usa um quarto dos recursos, segundo Jake Rice, responsável pela avaliação nas Américas.

Desde o início da colonização pelos europeus há 500 anos, 30% da biodiversidade da região foi perdida, segundo ele. Esse número pode subir para 40% nos próximos 10 anos, se não houver mudanças nas políticas ou comportamentos atuais.

Para salvar o planeta, é preciso mudar a mentalidade

“Será necessária uma mudança fundamental na forma como vivemos como indivíduos, comunidades e corporações. Precisamos pensar a economia de uma maneira diferente, com maior responsabilidade dos custos do futuro em relação aos benefícios que recebemos hoje”, disse Rice.

“É por nossa causa. Somos os responsáveis por todas as quedas nos níveis de biodiversidade. Precisamos dissociar o crescimento econômico da degradação da natureza. Precisamos medir a riqueza além dos indicadores econômicos”, afirmou Mark Rounsevell, corresponsável pela avaliação europeia.

Os autores enfatizaram ainda a estreita conexão entre as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Ambas vêm se afetando. De acordo com eles, em 2050 a mudança climática pode substituir a conversão de terras como principal fator para a extinção.

Em muitas regiões, o relatório aponta que as tendências atuais de biodiversidade estão colocando em risco as metas de desenvolvimento global da ONU para fornecer alimentos, água, roupas e moradia.

As defesas naturais também estão enfraquecidas contra eventos climáticos extremos, que podem se tornar ainda mais comuns. Embora o número de áreas de conservação tenha aumentado, a maioria dos governos não está conseguindo alcançar as atuais metas de biodiversidade. Os índices foram estabelecidos na conferência da ONU em Aichi, no Japão, em 2010. Nas Américas, apenas 20% das principais áreas de biodiversidade estão protegidas.

Os autores do estudo pedem o fim dos subsídios para agricultura e energia, pois estas áreas incentivam a produção insustentável. O apoio da União Europeia à pesca foi criticado. Watson também convidou as pessoas a mudarem para uma dieta mais sustentável (menos carne e mais vegetais). Além de desperdiçar menos comida, água e energia.

Existe esperança para acabar com a destruição da natureza

No norte da Ásia, a cobertura florestal aumentou em mais de 22% como resultado de programas de plantio de árvores, principalmente na China. Apesar do número de espécies ser menor do que no passado. Na África, houve a recuperação parcial de algumas espécies, embora ainda haja um longo caminho pela frente.

Watson – figura importante na campanha para reduzir os gases que estavam causando um buraco na camada de ozônio – disse que este relatório de biodiversidade foi o mais abrangente desde 2005. O estudo foi o primeiro que envolveu não apenas cientistas, mas governos e outras partes interessadas.

Apesar do panorama sombrio, ele disse que há motivos para esperança. O relatório descreve vários caminhos para o futuro, dependendo das políticas adotadas pelos governos e das escolhas feitas pelos consumidores.

Nenhum caminho prevê completamente o fim da destruição da natureza e perda de biodiversidade, mas os piores cenários podem ser evitados com maiores esforços de conservação.

O ponto principal é envolver os formuladores de políticas nos governos. Assim, eles podem entender que a biodiversidade afeta todas as áreas da economia.

Atualmente, estas preocupações são amplamente aceitas pelos ministérios do meio ambiente e de relações internacionais. No entanto, o desafio é fazer com que o debate seja incorporado por outras áreas do governo. Pastas como agricultura, energia e água precisam discutir o assunto. Empresas e consumidores também precisam desempenhar um papel mais responsável.

“Não fazemos recomendações, porque os governos não gostam que lhes digam o que fazer. Então, em vez disso, damos a eles opções ”, disse Watson.

Futuro da biodiversidade será discutido no final do ano

O relatório será usado em uma grande conferência da ONU no final deste ano. Os signatários da Convenção para a Biodiversidade se reunião em Sharm El-Sheikh em novembro. A ideia é discutir maneiras para aumentar as metas e fortalecer o cumprimento.

No entanto, vale lembrar, que desde 1977 já foram elaborados mais de 140 relatórios científicos. Quase todos alertando para a deterioração do clima e do mundo atual.

Sem mais pressão da sociedade civil, da mídia e dos eleitores, os governos têm relutado para sacrificar metas econômicas de curto prazo. Não pensam em enfrentar o desafio ambiental de longo prazo para o bem-estar do ser humano.

“A biodiversidade está sob séria ameaça em muitas regiões do mundo e é hora de os formuladores de políticas agirem em nível nacional, regional e global”, disse José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

Outros cientistas apontam a crise como algo mais crítico. O biólogo Paul Ehrlich alertou que o colapso civilizacional é “quase certeza” nas próximas décadas devido à atual destruição da natureza.

* Jonathan Watts é editor global de Meio Ambiente do The Guardian.

*Fonte: por Jonathan Watts para o The Guardian

*Imagem: Raphael Alves/AFP/Getty Images



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