Criminologia aborda temas sobre animais e os maus-tratos

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Os maus-tratos aos animais têm sido estudados pelo campo da criminologia há muitos anos, principalmente no exterior. Diversos especialistas tentam traçar um perfil psicológico das pessoas que torturam e matam seres que não podem se defender. A médica veterinária e especialista em direito animal, Gisele Kronhardt Scheffer, aborda neste artigo as pesquisas que já foram realizadas nesta área.

*Por Gisele Kronhardt Scheffer, médica veterinária, para o Canal Ciências Criminais

Não é de hoje que a criminologia vem abordando temas sobre os animais e os maus-tratos a que estes são submetidos, através de pesquisas e de literatura publicada a respeito.

Em 1985, Stephen Kellert e Alan Felthous, dois professores universitários norte-americanos, conduziram uma pesquisa intitulada “Childhood Cruelty toward Animals among Criminals and Noncriminals” (Crueldade na Infância contra os Animais entre Criminosos e não Criminosos).

Objetivavam avaliar a relação entre crueldade contra os animais. Também queriam investigar outros comportamentos violentos durante a infância, bem como a relação da família com essas crianças ou adolescentes agressores. Os criminosos foram selecionados nas penitenciárias federais de Leavenworth (Kansas) e Danbury (Connecticut), nos Estados Unidos.

Os indivíduos não criminosos foram escolhidos nessas mesmas comunidades. Ao todo, 152 amostras foram analisadas, todas do sexo masculino. Elas foram divididas entre criminosos excessivamente agressivos, moderadamente agressivos e não criminosos.

Verificou-se que os criminosos extremamente agressivos cometeram crueldade animal com maior frequência, em relação aos demais grupos. Nenhum ato de crueldade contra animais foi cometido pelos não criminosos participantes da amostra.

Esses pesquisadores concluíram, então, existirem, pelo menos, nove causas para a prática dos maus-tratos. São elas: controlar o animal; retaliação contra o animal; satisfazer um preconceito contra uma espécie ou raça; expressar agressão através de um animal; aprimorar sua própria agressividade; chocar as pessoas por diversão; retaliação contra outra pessoa; deslocamento de hostilidade de uma pessoa para um animal; e, finalmente, sadismo não especificado.

Maus-tratos a animais: mais pesquisas foram feitas ao longo dos anos

Frank Ascione, psicólogo e professor na University of Denver, concentrou recentemente sua atenção no abuso de animais cometido por crianças e adolescentes. Em 1993, definiu crueldade aos animais como: “comportamento socialmente inaceitável que intencionalmente causa dor, sofrimento ou angústia desnecessários ou morte a um animal”.

Já em 1995, Carol Adams, uma escritora americana, feminista e defensora dos direitos dos animais, afirmou que os maus-tratos aos animais são parte da dominância e exploração perpetrada por homens sobre outros seres menos poderosos (mulheres, crianças e animais).

Outra pesquisa foi publicada, em 1997, por Arnold Arluke, professor de Sociologia na Northeastern University (EUA), e Carter Luke, que examinaram casos de crueldade contra os animais, processados em Massachusetts (EUA) entre 1975 e 1996.

Constataram que aproximadamente 97% dos agressores eram do gênero masculino, com idade média de 30 anos. Concluíram, também, que adultos são mais propensos a ferir cães (com arma de fogo). Enquanto os gatos são as vítimas preferidas dos adolescentes (por meio de espancamento).

Um passo importante ocorreu em 1998, quando uma diferente definição de abuso animal foi proposta pelo criminólogo Robert Agnew. Segundo ele, abuso animal é “qualquer ato que contribui para a dor ou morte de um animal ou que ameace o seu bem-estar”. Esta definição, segundo Agnew, não limita os abusos somente a comportamentos ilegais.

No mesmo ano, Piers Beirne, professor de Introdução à Criminologia, Abuso de Animais e Criminologia Comparada na University of Southern Maine, preconiza uma “Criminologia não especista”, na qual o abuso animal seja reconhecido como legítimo tema para pesquisas, independentemente de sua relação com violência contra humanos.

Em 2000, Beirne abordou o ataque sexual interespécies centrado nos direitos e bem-estar do animal. Afirma que, frequentemente, prevalece uma visão antropocêntrica, onde a zoofilia é condenada por causa de preocupações sociais, religiosas ou morais.

Maus-tratos a animais: perfil dos agressores e acumuladores

Em 1999, Clifton Flynn, professor de Sociologia na University of South Carolina, realizou uma pesquisa sobre o perfil do agressor de animais. Como resultado, verificou que a maioria pertence ao gênero masculino, com faixa etária situada entre o final da adolescência e o início da fase adulta. A exceção são os acumuladores, onde predominam mulheres de meia idade ou idosas.

E, por falar em acumuladores de animais, Gary Patronek concluiu, após conduzir uma pesquisa sobre o tema em 1999, que 76% deles pertencem ao gênero feminino, com idades entre 37 e 60 anos, o que corrobora a afirmação de Flynn. Averiguou, também, que 72,2% dos acumuladores são mulheres solteiras, viúvas ou divorciadas.

Por outro lado, Angus Nurse, professor de Criminologia na Middlesex University School of Law, Reino Unido, assegura que a pesquisa sobre abuso animal não ocupa atualmente a posição que merece no meio acadêmico ou no discurso político. É necessária uma análise mais detalhada sobre maus-tratos aos animais. Assim, poderá se desenvolver uma compreensão de sua complexidade, variados efeitos sociais e a maneira como são tratados pelas agências de aplicação da lei.

No ano de 2001, Linda Merz-Perez e colegas pesquisaram a ligação entre crueldade animal na infância e uma provável agressão contra pessoas na idade adulta, o que foi denominado “Teoria do Link”.

Maus-tratos a animais: ainda há poucas pesquisas no Brasil

No Brasil, em 2013, Marcelo Nassaro procurou comprovar a teoria do Link. Ele analisou 643 autuações da Polícia Militar Ambiental no Estado de São Paulo por maus-tratos a animais, entre 2010 e 2012.

Nassaro constatou que o perfil médio do agressor é composto por 90% de homens, com média de 43 anos. E a maioria dos casos (73%) envolveu animais domésticos.

Como pode ser verificado, pesquisas e publicações sobre maus-tratos a animais ocorrem, majoritariamente, em outros países. No Brasil, estão sendo conduzidas por mim duas pesquisas criminológicas a respeito de maus-tratos. Elas serão divulgadas em breve.

*Fonte: Por Gisele Kronhardt Scheffer, médica veterinária, para o Canal Ciências Criminais

*Imagem: Marcos Guevara Rivera / Flickr

 



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