Como promover um ativismo vegano eficaz na veterinária

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Os médicos veterinários Isabelle Tancioni e Renato Pulz abordam no artigo a seguir algumas reflexões sobre o ativismo vegano na veterinária. Com base nas palestras dos autores Melanie Joy e Tobias Leenaert, os dois discorrem como os profissionais da área podem contribuir com os animais e na disseminação do veganismo.

*Por Isabelle Tancioni e Renato Pulz

Em fevereiro, participamos do curso “Capacitação para um Ativismo Vegano Eficaz“, organizado pela Sociedade Vegetariana Brasileira e realizado em Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP). Esse evento teve como objetivo melhorar a comunicação dos ativistas veganos com seus interlocutores.

Os palestrantes foram Melanie Joy, autora do livro “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas” (lançado no Brasil em 2014) e Tobias Leenaert, autor do livro “How to Create a Vegan World: A Pragmatic Approach” (Como criar um mundo vegano, uma estratégia pragmática, tradução livre em português). Melanie e Tobias ressaltam a importância de se utilizar uma comunicação eficaz, com o objetivo de sensibilizar a sociedade perante um grande número de animais afetados (aproximadamente 70 bilhões por ano!).

O trabalho dos palestrantes pode ser conferido nos sites Vegan Advocacy (conheça aqui), Beyond Carnism (clique aqui) e The Vegan Strategist (veja aqui).

Nós fizemos um resumo das ideias e opiniões colhidas durante as apresentações dos palestrantes e abordamos como podemos aplicar o que aprendemos na nossa trajetória como estudantes e profissionais na área de medicina veterinária.

1) Ativismo vegano: ajude ONGs e santuários ligados à causa animal

Há várias formas de ajudar e cada um deve fazer o que está ao seu alcance. Doações de dinheiro a ONGs são muito importantes, pois R$5,00 podem fazer uma grande diferença. Se para você é muito difícil doar qualquer quantia, que tal, então, doar seu tempo? Lembre-se que ONGs ligadas a cães e gatos costumam receber mais financiamento. Já, infelizmente, os santuários, que resgatam animais considerados comida por boa parte da sociedade, ganham muito menos.

Que tal conhecer e ajudar também os santuários que resgatam bois, porcos, galinhas, perus, jumentos, entre outros animais? O que acha de visitar um santuário desses, acompanhado (a) de amigos médicos veterinários, que só tenham convivido com tais animais de produção por um breve período, durante a faculdade, nas disciplinas de produção animal? Há inúmeros localizados no Brasil, como o Santuário Terra dos Bichos e Santuário das Fadas. Quer ajudar 800 jumentos resgatados? Então, que tal contribuir com a campanha organizada pela Frente Nacional em defesa dos Jumentos?

2) Ativismo vegano: compartilhe suas experiências e conecte-se com o interlocutor

A maioria das pessoas não nasce vegana. Assim como você, elas podem apresentar dúvidas e obstáculos para aderir ao veganismo. Portanto, escute o que elas têm a dizer com o intuito de entendê-las e compartilhe também suas experiências. Por exemplo: descreva como foi seu processo e saliente que você também já comeu carne, queijo e ovos.

Procure pontos em comum com seu interlocutor. Com isso, há mais chances de identificação. Destaque os benefícios do veganismo e não os malefícios do carnismo.

Evite promover a ideia que você é superior aos seus colegas que comem carne e se alimentam de produtos que contenham alguma substância proveniente de animais. Dizer que seus colegas são inferiores por salvar alguns animais e comer outros, transmite a ideia de superioridade moral que cria obstáculos na sua comunicação.

Em vez de você se colocar no pedestal, reconheça a importância dos professores, mentores e colegas não veganos na sua formação. Veterinários são um reflexo da sociedade que está mergulhada no carnismo, termo cunhado pela Melanie Joy.

Carnismo é uma crença invisível que nos condiciona a comer certos animais. Isso afeta a psicologia de não veganos, estabelecendo bloqueios que dificultam essas pessoas de visualizar as razões pelas quais não devemos comer animais.

3) Ativismo vegano: seja objetivo, escolha materiais que não contenham cenas de violência e saiba quando não interagir

Uma comunicação eficiente se estabelece pela conversa e não pelo debate. Não precisa ter um vencedor e um perdedor. A ideia é despertar a consciência e cada um tem seu próprio tempo. Evite falar de muitos conceitos e despejar muita informação de uma só vez.

Sabemos como é duro lidar com os nossos traumas vivenciados em consequência da violência provocada aos animais. Isso pode refletir na falta de objetividade que interfere com a habilidade comunicativa. Evite um ativismo agressivo, pois, afinal, acaba sendo uma forma de violência.

Não promova atividades em que as pessoas testemunhem sofrimento de forma “não intencional” usando cenas de violência. Isso também acaba por ser uma forma de abuso.

Há vários documentários e filmes que podem inspirar as pessoas no caminho do veganismo que não contém cenas violentas. Assim, você evita que algumas pessoas se traumatizem.

A veterinária vegana Dra. Armaiti May, que atua em Los Angeles (EUA), exibe um documentário que relata a experiência de pessoas que fundaram santuários e também mostra como elas se envolveram no veganismo. O nome dele é Called to Rescue. Ele inspira veganos e não veganos. Antes da sessão, ela oferece comidas veganas para as pessoas degustarem.

Faça a experiência ser prazerosa e promova associações positivas para seu interlocutor (comida vegana deliciosa ajuda e muito!). Por que não usar técnicas que aprendemos na metodologia Fear Free (Livre de estresse, tradução livre em português) que envolvam reforço positivo também para animais humanos?

Lembre-se que muitos de seus colegas escolheram a veterinária para trabalhar em algum setor da indústria associada à produção animal. Saiba quando não ser ativista: há pessoas que não estão prontas, não têm empatia e não são receptivas. Evite frustração e gasto de energia. Ponha sua disposição em outras pessoas mais receptivas.

4) Ativismo vegano: pratique um veganismo que promova a inclusão e plante sementes

A divulgação de campanhas que promovem o veganismo como o “Segunda sem carne”,  “Desafio 21 dias sem carne” e “Veganuary” são muito importantes para incentivar pessoas a conhecerem o veganismo. Que tal divulgar materiais dessas iniciativas para seus colegas? Usar a camiseta da campanha “Segunda sem carne” é uma ótima ideia para promover a ação.

A valorização dos simpatizantes também é essencial. O que acha de fazer um grupo com seus colegas do “Segunda sem Carne”? Elogie seus amigos que estão experimentando o veganismo uma vez por semana. Isso pode estimulá-los a continuar.

Convide interessados para participar de grupos de discussão que abordem os dilemas éticos na medicina veterinária. Convide seus amigos veganos e simpatizantes para um almoço em um restaurante com pratos veganos deliciosos. Promova eventos em sua casa com receitas caseiras sem ingredientes de origem animal preferidas.

5) Ativismo vegano: seja vegano na medida do possível

Não seja rígido consigo, você irá se frustrar, além de transmitir a mensagem de que o veganismo é difícil. Ninguém vai ganhar a “carteirinha clube vegano diamante” ou vencer o concurso “o mais vegano de todos”. Não é uma competição. Analise as condições de cada um e não cobre aquele amigo que está usando um sapato de couro que muito provavelmente comprou antes de se tornar vegano.

Não julgue! Nós veganos já sofremos por sermos minoria e também com o bullying de pessoas próximas. Precisamos exercitar a empatia no nosso próprio grupo.

Você não deixará de ser vegano se alimentar seus cães e gatos com carne ou com rações tradicionais no mercado que contém carne, entre outras substâncias de origem animal. O mesmo vale para as vacinas! Aliás, vacinação é muito importante para prevenir doenças que são fatais como a raiva.

Há muitos outros dilemas que nós, veganos, vivenciamos na prática da medicina veterinária. Nós abordamos muitas dessas questões em nossas palestras.

6) Ativismo vegano: cuide de você e tenha um grupo de suporte

Ativistas podem sofrer emocionalmente e correm o risco até de desenvolver “transtorno de estresse pós-traumático”, pela exposição à violência que os animais sofrem. Pratique o “ativismo sustentável”: cuide de si em primeiro lugar e evite se expor a cenas fortes.

Se dê permissão para não ser ativista o tempo todo. Evite ser negligente consigo e trabalhe com sua culpa. Quantas vezes caímos no choro por assistir um vídeo na internet contendo cenas de violência e em situações que nos sentimos impotentes?

Lembre-se que profissionais de veterinária possuem uma maior taxa de suicídio que a população geral. Se você estiver vivenciando um período difícil, procure ajuda e não se sinta sozinho.

7) Ativismo vegano: obter conhecimento é essencial!

Há muitos materiais e livros que podem te ajudar na sua jornada ao veganismo. É muito importante saber sobre direitos dos animais. Ter conhecimento sobre outros tipos de repressão existentes em nosso planeta também auxilia a se conectar com outras causas.

Tenha pastas contendo artigos científicos que mostram os benefícios do veganismo para saúde e preservação do planeta.

Para veterinários é essencial entender os diferentes aspectos que estão associados ao vínculo humano-animal, como também ter conhecimento nas áreas de bem-estar e comportamento animal.

Além disso, evite usar analogias que não são corretas. Por exemplo: ovo não é menstruação da galinha. Verifique também a veracidade dos fatos antes de espalhar uma notícia. Uma notícia falsa que é muito disseminada entre nosso meio é: os frangos são tratados com hormônios.

Compreender como os animais foram domesticados e como certas características selecionadas são essenciais para entender como as indústrias que criam animais para o comércio funcionam, e também para construir sua argumentação. Que tal formar e participar de grupos de estudos?

Isabelle Tancioni e Renato Pulz são médicos veterinários veganos. Desenvolvem projetos em prol do bem-estar dos animais no âmbito acadêmico e social.

*Fonte: Veg Vets

*Imagem: divulgação



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