Como comprar alimentos orgânicos e com baixo custo

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Encontrar alimentos orgânicos com um baixo custo financeiro pode parecer complicado. No entanto, é preciso saber onde procurá-los. A especialista em agroecologia, Ale Nahra, explica como adquirir produtos sem agrotóxicos que sejam baratos e de fontes confiáveis.

*Por Ale Nahra

Produtos orgânicos são caros. Aposto que você já ouviu (e talvez até já disse) isso muitas vezes. Existem vários fatores que fazem com que os alimentos orgânicos, produzidos sem agrotóxicos, cheguem até a mesa do consumidor com preço geralmente mais alto do que aqueles produzidos de maneira convencional, isto é, com agrotóxicos.

Esses fatores incluem: a produção em menor escala; o custo da certificação orgânica, o “selo” que garante que o alimento foi produzido sem agrotóxicos; e os custos maiores de mão de obra na agricultura orgânica, que não é tão mecanizada como a convencional.

Porém, o preço mais alto dos alimentos orgânicos não é necessariamente uma verdade. É possível comprar alimentos sem agrotóxicos e com baixo custo. Mas, depende de onde você compra.

Alimentos orgânicos em supermercados são mais caros

“Se você compra no supermercado, vai ser mais caro, sim”, diz a nutricionista Cristiana Marinho Maymone, especialista em alimentação e cultura e Mestra em Nutrição em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

Uma pesquisa da Rede Brasileira de Grupos de Consumo Responsável corrobora essa opinião. Realizada entre 2014 e 2015, a pesquisa apontou que os preços dos alimentos sem agrotóxicos nas feiras orgânicas e nos grupos de consumo são sempre menores do que os valores dos mesmos alimentos quando comprados em supermercados. No caso dos grupos de consumo, são bem menores, variando entre 16% até 280% (acesse a pesquisa aqui).

Alimentos sem agrotóxicos, adquiridos através dos grupos de consumo, podem ser mais baratos até do que produtos com veneno comprados nos supermercados.

Aproximadamente dois terços dos preços dos produtos levantados apresentam valores equivalentes ou menores nos grupos de consumo em relação aos convencionais no supermercado. Uma cesta de 18 produtos sem agrotóxicos no grupo de consumo acaba apresentando um valor médio (R$72), equivalente ao valor de uma cesta de itens convencionais no supermercado (R$70).

Alimentos orgânicos: os circuitos curtos

Nas feiras orgânicas e nos grupos de consumo, os alimentos chegam até o consumidor através de circuitos curtos. Isto é, há uma distância menor entre o agricultor e o consumidor. Os circuitos curtos são aqueles em que o alimento chega nas mãos do consumidor com informações que lhe permitam saber onde o produto foi produzido (lugar), por quem (produtor) e de que forma (sistema de produção – orgânico ou convencional).

“Os grandes mercados visam bem mais o lucro do que a oferta de uma alimentação saudável”, diz Cristiana. E isso faz com que inflem os preços dos produtos, porque há demanda para orgânicos. Além disso, entre o produtor e o consumidor existe uma cadeia que envolve muitos pontos, na qual o agricultor é o que ganha menos.

Nos circuitos curtos não tem tanta gente no meio. O produtor vende direto (ou quase) ao consumidor. Como não há tantos atravessadores, e como não infla o valor do produto para aproveitar a demanda e aumentar o lucro, o alimento sem agrotóxico sai mais barato para o consumidor e tem rendimento maior para o agricultor.

“A melhor estratégia são as compras coletivas, as pessoas se organizando e tendo contato com o agricultor. Isso vai fazer com que a gente tenha uma relação de companheirismo e confiança na pessoa que está produzindo. Sempre que a gente reduz essa distância entre o agricultor e o consumidor, estamos fazendo, antes de tudo, bem para a humanidade, não só para o nosso corpo, mas nas relações que se estabelecem a partir do alimento e do consumo”, diz Cristiana.

Supermercados: o pior lugar para comprar alimentos orgânicos

As compras nos supermercados, segundo a nutricionista, não permitem que se estabeleça essa relação de confiança com o agricultor. “E ainda padroniza a beleza de um alimento de forma que não é verdadeira. Não é à toa que as folhas de beterraba e cenoura são arrancadas. Não é só porque não temos costume de consumi-las, mas também por que elas vão denunciar quanto tempo esses alimentos estão ali na prateleira”, explica Cristiana.

Além disso, as grandes redes varejistas escondem uma série de questões e relações que estão embutidas na comida que consumimos, ainda que não consigamos vê-las. É importante se questionar sobre quem efetivamente paga o preço real dos alimentos vendidos muito baratos em grandes supermercados.

“Com frequência, um preço muito baixo esconde uma série de custos invisíveis: condições trabalhistas precárias na origem e no destino, má qualidade do produto, impacto ambiental etc.”, diz Esther Viva Esteves no livro O negócio da comida — quem controla nossa alimentação?

Cristiana reforça essa questão. “Quando compramos no supermercado, estamos não apenas pagando mais caro, mas também sustentando uma série de relações injustas que a gente nem percebe”, salienta.

Alimentos orgânicos: a produção agroecológica

Alimentos orgânicos são, indiscutivelmente, bons para a saúde do corpo, já que são cultivados sem os agrotóxicos utilizados na agricultura convencional. Mas, a produção orgânica não necessariamente envolve métodos de agricultura que são ecológicos ou socialmente justos.

Não é incomum que a produção orgânica reproduza mecanismos da agricultura capitalista, interessada mais no lucro do que na saúde da população ou no bem-estar do trabalhador. Ainda mais nessa época em que o orgânico está em alta e se pode ter lucro com ele.

“O alimento orgânico pode não ter veneno, mas envolver trabalho análogo ao escravo, ser uma grande monocultura. A maior parte das terras está em risco, porque o que está crescendo é a indústria de alimentos, e a bancada ruralista está aí pra fortalecer isso. Os alimentos agroecológicos tentam sair desse ciclo capitalista”, diz Cristiana.

Aqui entra a agroecologia. Segundo o Dicionário de Educação do Campo, a agroecologia constitui “um conjunto de conhecimentos sistematizados, baseados em técnicas e saberes tradicionais dos povos originários e camponeses, que incorporam princípios ecológicos e valores culturais às práticas agrícolas que, com o tempo, foram descologizadas e desculturalizadas pela capitalização e tecnificação da agricultura”.

“A agroecologia é muito mais do que produzir alimentos de forma orgânica. As práticas agroecológicas não objetivam o lucro a partir do alimento. São práticas anticapitalistas em defesa da vida”, explica Cristiana. O alimento agroecológico, afirma ela, é produzido de forma humanamente sustentável.

“A agroecologia não é uma técnica. É um conjunto de ações e conceitos que resgata técnicas ancestrais e saberes tradicionais na produção de alimentos, sim. Mas, o maior foco objetivo da agroecologia é a emancipação humana, em vez do lucro”, diz Cristiana.

Alimentos orgânicos: produção agroecológica e o selo de certificação

O alto custo da certificação orgânica muitas vezes impede a certificação da produção para certos agricultores. Mas, se o alimento é agroecológico, é sem veneno. Mesmo que não tenha o “selo” orgânico.

A necessidade de ter um selo de garantia é questionada pela nutricionista. “Por que o ônus de provar que é feito sem veneno cai no colo dos agricultores orgânicos, enquanto os convencionais não precisam provar que seus alimentos são seguros, mesmo com toda a carga de agrotóxicos que recebem?”, reflete.

“A agricultura convencional é que deveria colocar um selo garantindo que o alimento passou por um controle de qualidade. Os agrotóxicos são usados de forma desenfreada e não têm selo de garantia”, acrescenta Cristiana.

O selo orgânico, desta maneira, pode reforçar a relação capitalista entre o alimento, o consumidor, e os mercados, porque acaba tornando o produto elitizado, em cima do qual se pode ter mais lucro, porque é “orgânico”.

Assim, alguns produtores agroecológicos não têm a certificação orgânica. Como, então, garantir que seus alimentos não têm mesmo agrotóxicos? Através da proximidade que sugere Cristiana. “Quando estamos próximos do agricultor, ganhamos confiança. O contato com o agricultor é muito melhor que a intervenção do estado. Se a gente compra direto com o produtor, a gente não precisa de selo de garantia”, acredita.

Como encontrar alimentos orgânicos que não custam caro

A primeira coisa, como já apontou Cristiana, é estabelecer uma relação mais próxima com quem planta a sua comida. Para isso, é necessário procurar, na sua cidade, as feiras de produtores, grupos de consumo, CSAs (Comunidade que Sustenta a Agricultura).

Outra coisa muito importante é conhecer mais os alimentos e seus ciclos. Uma agricultura ecológica respeita os ciclos naturais e tem baixo impacto.

Assim, um alimento pode ser produzido de forma ecológica, digamos, no Chile. Mas, quando chega ao Brasil não é mais ecológico. A quantidade de combustível que foi utilizada para que esse alimento atravessasse a cordilheira dos Andes já matou os benefícios ambientais adquiridos na origem (essa é uma situação hipotética, visto que um alimento que atravessa a cordilheira provavelmente foi colhido antes da hora e precisou de substâncias químicas para resistir à viagem e ter seu tempo de prateleira aumentado. Ou seja, não há alimento agroecológico possível vindo de tão longe).

Dessa maneira, vamos consumir alimentos produzidos perto da gente. E isso significa que nem sempre vamos ter todos os tipos de vegetais. Porque as plantas têm épocas determinadas para serem cultivadas e darem os frutos, de acordo com a localização geográfica e estação do ano. “A gente está acostumado a consumir o mesmo tipo de alimento sempre. Por exemplo, salada com alface e tomate. Mas, alface e tomate não dão o ano inteiro”, informa Cristiana.

Alimentos orgânicos: locais e da estação

Alimentos da estação, e produzidos localmente, são mais baratos. Que tal tentar um almeirão em vez do alface? É preciso ampliar o repertório alimentar. Aí entra também o conhecimento das espécies vegetais.

Desde a revolução verde, apostou-se em poucas espécies vegetais (em 2003, apenas 15 espécies respondiam por 90% dos alimentos vegetais, e apenas quatro cultivos — milho, trigo, arroz e soja — respondiam por 70% do consumo, de acordo com a autora Esther Vivas Esteve).

“É isso que a gente vai dizer que é alimento. Com o passar do tempo, as outras coisas foram caindo no esquecimento. Ao resgatar saberes tradicionais, temos a oportunidade de reconhecer muitas espécies que estão sendo esquecidas. Existem vários alimentos que já foram tradicionais, como a taioba e a ora pro nobis, que agora estão voltando. As pessoas têm que saber que são alimentos que podem ser utilizados”, sugere Cristiana.

Alimentos orgânicos de graça

A gente desaprendeu a reconhecer comida que não esteja à venda. Precisamos nos familiarizar com as plantas, e aprender a encontrar comida que não esteja nas prateleiras dos supermercados ou nas bancadas das feiras.

Na zona oeste de São Paulo, por exemplo, no bairro de Perdizes, é muito comum encontrar caruru e beldroega nos canteiros das calçadas. Isso é comida. De graça.

“Hoje, o modelo agroalimentar foi sequestrado pelos interesses de um punhado de corporações do agronegócio e grandes varejistas, que buscam apenas ganhar dinheiro com algo tão essencial como é a comida. Comer de forma consciente envolve perguntar-se de onde vem o que consumimos, como foi elaborado, em que condições, e por que pagamos por isso um determinado preço. Significa tomarmos o controle de nossos hábitos alimentares, e não simplesmente delegar”, explica a autora do livro O Negócio da Comida.

Ela está falando de soberania alimentar. O desafio é ir ainda mais longe: fazer com que nossas escolhas de consumo impulsionem mudanças políticas para que essa soberania alimentar chegue à população.

Alimentos orgânicos agroecológicos em São Paulo:

Feira Agroecológica de Mulheres no Butantã

Armazém do Campo

Instituto Feira Livre

Mapa de Feiras Orgânicas IDEC

Comunidade que Sustenta a Agricultura – CSA – Brasil

CSA São Paulo

É importante ressaltar que os CSAs não comercializam cestas orgânicas e nem são grupos de compras coletivas. Os CSAs propõem toda uma relação entre agricultores e consumidores, que são chamados de co-agricultores.

As pessoas do grupo bancam a produção do agricultor e recebem essa produção — ou não recebem, caso haja algum imprevisto ou fator que afete a colheita. É uma excelente forma de estreitar a relação com quem produz alimento. Mas, nem sempre será a forma mais barata de consumir alimentos sem agrotóxicos.

Ale Nahra é jornalista e especialista em permacultura, agroecologia e agricultura urbana.

*Fonte: Herbívora

*Imagem: divulgação

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