Agrotóxicos na natureza e saúde humana

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Os agrotóxicos são responsáveis por inúmeros problemas de saúde, além de causarem a diminuição de algumas espécies animais. As abelhas, por exemplo, estão entre os que correm risco de extinção (leia aqui), devido ao uso do produto. Muitos pesticidas utilizados em plantações causaram câncer em pessoas que foram expostas a eles (leia aqui). O geólogo ambiental Roberto Naime explica nesse artigo os danos provocados pela química e promove uma reflexão de métodos alternativos na agricultura.

*Por Roberto Naime para o EcoDebate

A utilização de agrotóxicos levanta uma série de preocupações ambientais. Mais de 98% dos inseticidas pulverizados e 95% de herbicidas chegam a espécies/vítimas diferentes daquelas às quais inicialmente se destinam e pretendem, incluindo espécies não-alvo, como a água, o ar e o solo.

A dispersão de agrotóxicos ocorre quando, em suspensão no ar como partículas, são levadas pelo vento para outras áreas, podendo gerar contaminação. Além disso, o uso de agrotóxicos reduz a biodiversidade e a fixação de nitrogênio. Contribui também no declínio dos polinizadores e destrói o “habitat” e recursos alimentares. Isso aumenta o número de espécies ameaçadas de extinção.

As pragas podem desenvolver uma resistência aos agrotóxicos, necessitando de novos produtos. Por vezes, como alternativa, se usa uma maior dose das moléculas para neutralizar a resistência. Embora isso provoque um agravamento de toda a cadeia de consequências ao meio ambiente.

Por fim, a exploração em monocultura resulta em profundos desequilíbrios ecossistêmicos e maior incidência de pragas, que levam a utilização de mais moléculas.

Agrotóxicos: uso acarreta problemas para todos

Todos os profissionais que apreendem e incorporam princípios básicos do evolucionismo em suas áreas de trabalho, sabem que, quando determinados antídotos sintetizados, de natureza química, são ministrados para populações visando sua eliminação, tendem a sobreviver apenas indivíduos resistentes a este antídoto e com melhor aptidão para sobrevivência. Até que sejam eliminados por novas versões de antídotos químicos, pesquisados, sintetizados e desenvolvidos especialmente para esta finalidade. Numa espiral que se conhece o começo, mas não tem fim.

Qualquer médico sabe que quando determinado vírus ou bactéria se torna resistente a um antibiótico, é preciso lançar mão de uma a geração mais moderna de antídotos químicos, numa espiral sem fim.

Toda a alimentação que não está classificada e assumida como biológica ou ecológica, provém de explorações agrícolas, onde estes produtos são geralmente usados. Isso significa que toda a alimentação que se consome está contaminada, em maior ou menor escala. Incluindo os alimentos transformados, pois estes vêm de matérias-primas agrícolas que sofrem dos efeitos de uso dessas práticas.

Há, ainda, o fato de que os produtos alimentares industriais resultam da adição de inúmeros ingredientes químicos e de síntese, que por vezes chegam a ser mais perigosos que os próprios agrotóxicos.

Doenças graves são causadas pelos agrotóxicos

Os agrotóxicos podem causar efeitos agudos na saúde às pessoas que estão mais expostas. Essa exposição pode causar uma variedade de efeitos adversos à saúde. Eles podem variar de uma simples irritação da pele e olhos, até a problemas mais graves, como aqueles que afetam o sistema nervoso, mimetizando os hormônios. Podem provocar problemas reprodutivos também, e, inclusive, câncer.

A Associação Médica Americana recomenda limitar a exposição a pesticidas e a adoção e utilização de alternativas mais seguras. Muitas incertezas particulares existem a respeito dos efeitos a longo prazo na já referida exposição e consumo que deve ser, ao máximo, mantida em baixa dose e vigilância permanente. Os atuais dados e sistemas são insuficientes para caracterizar o risco potencial de problemas relacionados ao uso de agrotóxicos e na relação das doenças que podem ser causadas.

Considerando estas lacunas de dados, é prudente tomar medidas e informar para limitar a exposição. Deve-se usar o mínimo de produtos químicos tóxicos, assim como aditivos alimentares.

Agrotóxicos provocam mortes

Um outro estudo descobriu que os agrotóxicos também são usados como recursos para autoenvenenamento. Foi o método eleito num terço dos suicídios realizados no mundo. A pesquisa recomendou, entre outras coisas, mais restrições sobre os tipos de pesticidas e sua venda livre.

O desastre em Bhopal, na Índia, ocorreu quando uma fábrica de agrotóxicos lançou 40 toneladas de metil-isocianato (MIC) de gás, um produto químico intermediário na síntese de alguns inseticidas. O desastre matou quase que imediatamente 2.259 pessoas. Além de ter causado, posteriormente, pelo menos 15.000 mortes. Nestas estatísticas só estão contabilizados humanos, pois se alargarmos o espectro de análise para seres vivos, provavelmente será registrado centenas de milhares de milhões.

Isto se alastra à análise dos efeitos ambientais dos agrotóxicos, não unicamente para a sua utilização na agricultura, mas também ao processo de produção.

Agrotóxicos: como evitar pragas com métodos alternativos

Alternativas aos agrotóxicos estão disponíveis e incluem métodos de cultivo naturais ou ecológicos e uso de controles biológicos de pragas. Além de engenharia genética e métodos de interferir com a reprodução dos insetos.

As práticas de cultivo incluem as policulturas, rotação de culturas, o plantio em áreas onde as pragas que danificam as culturas sejam em número reduzido, de acordo com a época de plantação, quando as pragas são menos problemáticas. Além de uso de armadilhas ou iscas, que atraem as pragas para longe da cultura real.

O lançamento de outros organismos que combatem a praga é outro exemplo de uma alternativa à utilização de pesticidas.

Na Índia, os métodos tradicionais de controle de pragas incluem o uso do “Panchakavya”. É um produto tradicional, que mistura cinco substâncias. O método recentemente experimentou um ressurgimento na popularidade, devido, em parte, ao uso pela agricultura orgânica comunitária em várias regiões.

Um crescente corpo de dados epidemiológicos está ligado a exposição a agrotóxicos. Eles são absorvidos no período pré-natal, em que as substâncias atravessam a placenta durante o desenvolvimento fetal. Muitas crianças ficam expostas à química já nos primeiros anos de vida.

Outro estudo, realizado pelos Centros de Controle de Doenças e Prevenção nos Estados Unidos, concluiu que o cidadão médio americano retém mais de uma dezena de diferentes moléculas no seu organismo.

*Fonte: Roberto Naime para o EcoDebate

*Imagem: IFPRI / divulgação



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